ZÉ ANTÔNIO LEMOS: Alexis Nicolau Romanov, o príncipe da minha rua

Familia Romanov, na Rússia, em 1913

 

O PRÍNCIPE DA MINHA RUA

Por José A Lemos

De novo sua história e de sua suposta família está na tv e na internet em mais uma versão que se junta a tantas outras. Contudo, para mim sua história verdadeira é a que ele contou a vida inteira. Minha primeira referência a ele foi em uma reportagem na antiga revista O Cruzeiro, a mais importante revista brasileira na época, acho que em fins da década de 50, e mostrava um encontro dele com uma suposta irmã em Poços de Caldas, a qual depois lhe deixaria ao morrer uma relíquia pessoal, sua balalaica. Lembro ainda de uma reportagem de capa na Manchete, revista que substituiu a O Cruzeiro como a mais importante do país e, por fim, lembro também dele no programa do Jô Soares, isso tudo sem contar as diversas matérias nos jornais locais e na internet de um modo geral. Basta dar uma busca no Google.

Falo de Alexis Nicolau Romonov, ou Romanov, antigo morador aqui da minha rua, mecânico falecido em 1996, atropelado. A história que sempre repetiu sobre sua vida despertou interesse geral por décadas, talvez pela coerência dos fatos, personagens, datas e locais que usava com convicção demonstrando no mínimo grande conhecimento de tudo que se passou no começo do século passado na Rússia, ainda que não levasse a crer necessariamente ter sido ele um dos protagonistas daquela trágica história. De um modo geral tudo que ele contava coincidia com a história oficial, menos em um ponto fundamental: ele devia estar morto desde 16 de julho de 1918. Então, na semana passada fez 101 anos de sua primeira morte, por fuzilamento junto com toda a família imperial russa, em episódio histórico incontroverso à época. Todos haviam morrido, impensável que alguém tivesse sobrevivido.

 

Alexis, o russo cuiabano

Conforme aqueles que o entrevistaram, Alexis contestava a história oficial de bate-pronto, sem pestanejar, na bucha: “Se eu tivesse morrido, não estaria aqui.” E complementava que seu corpo e de sua irmã Anastácia jamais seriam encontrados junto aos da família imperial, porque eles haviam escapado graças à intervenções  não muito claras, dentre as quais de personagens como Rasputin, figura contestada mas de grande proeminência na corte russa de então, que teria inclusive sido adotado como guru e protetor pela da família imperial, em especial por proporcionar melhoras na saúde do príncipe Alexis, tido pela medicina da época como hemofílico, diagnóstico contestado pelo polêmico curandeiro. Como a morte de toda a família imperial era incontestável pela história oficial, a versão do mecânico cuiabano não poderia ir além de uma fantasia, como as tantas outras contadas por supostos pretendentes ao trono russo pelo mundo afora.

Mesmo descrente em relação ao seu protagonismo na história russa, a história do mecânico Alexis nunca me saiu da cabeça. Até que em 1991 um fato inesperado mudou minha forma de ver o assunto. Com a queda do regime soviético foram descobertas as ossadas da família imperial, revelando enorme surpresa: a ausência dos ossos de Alexis e Anastácia. Aí mudou tudo. A certeza histórica oficial irrecorrível e incontestável esboroou remetendo-me de imediato à afirmação do mecânico de Cuiabá de que seu corpo e de sua irmã Anastácia jamais seriam encontrados junto aos da família imperial.

Histórias desta grandeza envolvem imensos e poderosos interesses e logo achariam os corpos dos jovens em outros lugares, providenciaram testes de DNA, inclusive com o Alexis cuiabano, recompondo assim a história oficial abalada. Sem mais delongas, com meus respeitos à memória de Alexis e à sua família cuiabana, mesmo que Alexis Nicolau Romonov jamais seja reconhecido como um Romanov, ou mesmo que jamais o tenha sido, para mim ele será sempre o príncipe da minha rua.

 

JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é conselheiro do CAU/MT, acadêmico da AAU/MT e professor universitário aposentado.

 

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