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ANA RABECCHI E VERA MAQUÊA: Estranhamento e o suspense parecem ser algumas das paixões e fervorosas preferências do escritor Eduardo Mahon

Eduardo Mahon

Eduardo Mahon: uma literatura em construção

Ana Rabecchi e Vera Maquêa

Se há uma declaração modernista na obra do escritor mato-grossense Eduardo Mahon é a reivindicação do direito à permanente pesquisa estética, como vem se revelando já a partir de seu primeiro livro Nevralgia (2013). Desde Doutor Funéreo e outros contos de morte (2014), enamora a forma à crônica, se consideramos ainda a leveza e a ligeireza das pequenas narrativas. Se se espera que, contemporânea a este livro de contos, a poesia de Meia palavra vasta (2014), ruma para o mesmo modo, chega à surpresa suprema: o livro é uma intermitência entre a poesia circunstancial dos poetas marginais dos anos 70 e a proposição formalista dos concretistas, gesto criativo consubstanciado pela fuga do ditado popular “para um bom entendedor…”.

Dos três livros que apareceram em 2015, dois insistem na poesia e inauguram, para os desavisados como nós, uma trilogia centrada na palavra: Palavra de amolar e Palavrazia que seguem a Meia palavra vasta do ano anterior.  A palavra então deixa de ser apenas o material de trabalho desse poeta para ser uma metáfora expandida da ação criadora, ao modo de tantos poetas da tradição literária brasileira. Nesse terreno de obras colhemos o primeiro romance de Mahon, O cambista (2015). Começando por um “fim”, com uma personagem de nome do leste europeu, o romance segue o movimento de cambistas levando o leitor a sentir-se como aquele viajante de um barco a vela em dias de ventania.

Quando aparece O fantástico encontro de Paul Zimmermann (2016), e nos defrontamos com o primeiro capítulo do romance intitulado “o começo”, é quase impossível não pensar num cruzamento com O cambista, marcado na largada com “fim”.  Se o apelo ao exótico, instituído pela escolha das matrizes linguísticas com que se nomeiam as personagens, é um elemento comum entre os dois romances, a forma vem mostrar que do movimento narrativo d’O cambista não restam mais que fragmentos de cenas, capturados por uma espécie difusa de fotografia.

Por esse percurso, Eduardo Mahon pode ser colocado entre os novos ficcionistas que encenam as possibilidades plurais de nossa prosa de ficção. Os acontecimentos inusitados que formam e enformam a sua produção literária encontram-se realçados nestes Contos estranhos (2017). Aqui, certos aspectos, certas reiterações, certos arquétipos mahonianos, como o estranhamento e o suspense parecem ser algumas das paixões e fervorosas preferências de Mahon.

A obsessiva presença de existências insólitas, de situações estranhas pode ser rastreada desde o início dos contos e nota-se que Mahon se entregou à laboriosa empresa de sonhar outra realidade até conseguir a sua instituição, a deslocação do cotidiano com toda irreverência que a instabilidade lhe confere. Sua ficção nasce, então, de histórias cotidianas e avançam muitas delas pelo caminho da perplexidade e mistério, isto é, o autor devolve à realidade o perdido mistério sutilmente incrustrado no real que o olhar desatento não percebe.

Vamos descortinando na originalidade da sua escritura um surpreendente repertório de referência da tradição literária que Mahon reinventa para seduzir os leitores pelo jogo ambíguo à cata de um referente no real. É o que acontece nos contos curtos pelo sonho de ser outro, pelo vazio de perder a própria sombra, pela visão do espelho (o duplo), pela vida robotizada do cotidiano, pela solidão e o abandono, pela invasão constante de privacidade, pela luta de classes, pela fuga da realidade desumana, diante do absurdo vemos o inverossímil se misturar ao verossímil.

A coletânea contém um conto longo “O homem de um país que não existe”, é uma história circular, onde cada parágrafo é um capítulo suspenso abruptamente para que outro apresente novo acontecimento encaixado na grande história, como num quebra-cabeça, termo usado pelo próprio autor. A história de Santiago Ayza, o homem do país que não existe, desde o começo já se apresenta com ar de mistério ao ter como personagem principal um estrangeiro de um país que não existe – Hermosa. Como o canto das sereias que desviavam fatalmente os navegantes de sua rota, vamos sendo seduzidos pelo jogo ambíguo e falsos recuos na história da personagem que vai se tornando cada vez mais misteriosa aos olhos de outras personagens e dos leitores, que durante a narrativa se veem todo ouvidos na iminência de uma revelação.

O fascinante numa situação de sedução é o suspense, assim a narrativa segue ziguezagueante até quase o final quando podemos ter a visão de conjunto e a personagem vai tomando forma. Como um conto sempre conta duas histórias (Piglia), a história de Ayza se mistura à política permeada por golpes e corrupções cuja geografia pode, a princípio, se situar em qualquer país latino-americano.

Um convite à leitura, como poderão ver ao folhear cada página deste livro que hoje chega a público.

                                                                               Ana Rabecchi e Vera Maquêa são professoras da Unemat

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