AMOR DE MÃE É UMA GRANDE ARTE – Sandro Lucose, Rosylene Pinto, Milton Pereira de Pinho, o Guapo, e Habel Dy Anjos Santos, artistas cuiabanos, conversam com João Bosquo Cartola e comentam sua relação com a figura materna e demonstram seu amor

 

Guapo, cantor compositor mato-grossense, com sua mãe, Maria de Lima Pinho

Guapo, cantor e compositor mato-grossense, com sua mãe, Maria de Lima Pinho

Amor de mãe é uma grande arte

Artistas cuiabanos comentam sua relação com a figura materna e demonstram seu amor
 
JOÃO BOSQUO
Do DIARIO DE CUIABÁ
 
Dia das Mães: mesmo os corações mais ‘realistas’ uma hora, no segundo domingo de maio, para (verbo) um momento, um instantezinho de nada, para (preposição) lembrar-se da mamãe.
 
Mãe é – não tenho como avaliar – um tema recorrente à poesia, a poesia discursiva, bem entendido, pois na poesia concretista não lembro de nada. Para o nosso poeta maior (por conta das avaliações antigas, do século passado) Carlos Drummond de Andrade, “mãe não morreria nunca”, como declara no poema “Para Sempre”.
 
Para nós, cristãos ocidentais, hoje é o dia da Nossa Mãe Santíssima, Maria de Nazaré, com bem o Cristo declarou, lá em João, capítulo 19: “Ora, Jesus, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E, desde aquela hora, o discípulo a recebeu em sua casa”. (João 19: 26,27). Que não paire dúvidas.
Habel dy Anjos com Maria Hussar, sua mãe

Habel dy Anjos com Maria Hussar, sua mãe

 
Dia das Mães. Peço aos artistas que nos conte um pouco de sua relação com sua mãe. Sandro Lucose, o dono do palco com a peça “Peer Gynt”, que recentemente encerrou uma temporada de seis apresentações, no Teatro Zulmira Canavarros, diz que “não venho de uma família de artistas. Mas o capricho e cuidado com que minha mãe, Terezinha, faz seus trabalhos manuais, com certeza me influenciaram em ser perfeccionista quando construo uma cena no teatro”.
 
O compositor, pesquisador e cantor Milton Pereira de Pinho, o nosso Guapo, assim proclama a sua relação filial com dona Maria de Lima Pinho, que, no próximo dia 14, irá festejar os 85 anos. “Foi lavadeira ribeirinha do Rio Paraguai, mascava fumo de corda, filha de poaieiro, cururueiro. Me ensinou a escrever e ler com o pouco que sabia, cantava pra mim dormir, passava saliva de fumo de corda quando eu me queixava de ferroada de mosquito na beira do rio. Quando aparecia um arco- íris no céu ela dizia que logo ele ia mijar para chover em nós. Meu pai, físico, matemático, de outro lado, dizia que era deflação da luz decodificada por Isaac Newton”. Guapo ri quando conta isso.
Rosylene Pinto e sua mãe, Ana Maria

Rosylene Pinto e sua mãe, Ana Maria

 
Habel Dy Anjos, professor e músico mineiro acuiabanado pelo som da viola de cocho, conta que sua mãe, Maria Hussar, filha de austríaco com uma Iugoslava, casou-se ainda jovem com um português artista, cantor de tangos, gaitista, engenheiro de som e proprietário de uma agência de publicidades, a ASA, de Abel Santos Anjo. O destino lhe roubaria muito cedo o esposo, mas não antes de, por predestinação, deixarem o Abel filho vir ao mundo para seguir na arte, os caminhos do pai.
 
“Assim, órfão e com o dom da música desenvolvido com influência paterna, lá estava eu, mais uma vez a preencher os silêncios da nossa casa com violões, cantorias, gravações e dando continuidade ao Museu Dy Anjos iniciado pelo velho Abel. Hoje, mãe, agradeço por ter me incentivado a ser, ainda que tanto precisássemos do ter. No mundo da arte, graças à senhora, eu prossegui, ainda que muitos parentes e amigos pedissem para que eu mudasse meu intento e fizesse uma carreira mais “lucrativa”. Como nada se leva de material dessa vida, fiz o que meu destino quis. Hoje sou feliz” – resume Habel.
 
A blogueira e artista plástica, Rosylene Pinto assim escreveu o seu depoimento: “Entre os avanços e os recuos da vida, as curvas, pinturas, desenhos, massa barro e os obstáculos, nos caminhos em linha reta ou tortuosos com as inesperadas mudanças de direção, sempre foi maravilhoso saber que sempre existe sua presença constante em minha vida, minha querida mãe! Você é o alento nos dias de sofrimento, o riso da minha alegria, o conforto da minha ansiedade e a sabedoria da minha inexperiência.”
 
“Te amo muito, minha querida mãe! Chamar Ana Maria de mamãe é um orgulho e um privilégio sem igual. Mãe completa, que gerou e me criou com amor, paciência, retidão e sabedoria, sempre grande incentivadora na Arte e na vida. Um exemplo de mãe, de mulher, de pessoa. Uma inspiração, não apenas para mim como para todos os que a conhecem, homenagear você com total correção será sempre impossível, pois nada haverá nunca que eu possa fazer para lhe retribuir tudo o que você já fez por mim. desejo a você mamãe e a todas as mães um Feliz Dia das Mães”.
 
Por essas contas do calendário, quando o mês de maio começa numa terça-feira, segundo domingo será no dia 13 de maio. Pois foi num desses domingos, no longínquo ano de 1979, que publiquei um longo poema dedicado às mães, com o título de “Nossa Senhora de Nossas Mães”, nas páginas do jornal Equipe, dedicado não só à minha mãe, Dona Josefa, como a mãe de meus filhos.
João Bosquo Cartola e sua mãe, dona Josefa

João Bosquo Cartola e sua mãe, dona Josefa

 
 
NOSSA SENHORA DE NOSSAS MÃES
 
JOÃO BOSQUO
 
Nossa Senhora de Nossas Mães
 
olhai por Dona Josefa
 
que toda vida me teve
 
sempre, com bons olhos
 
boa intenção e boa comida
 
 
 
Nossa Senhora de Nossas Mães
 
olhai por Eunice Aparecida
 
que é mãe e filha
 
só não sei ao momento
 
se é mais mãe ou mais filha
 
 
 
Nossa Senhora de Nossas Mães
 
olhai por todas as mães do mundo
 
pelas mães escondidas
 
nos gestos mais duros
 
 
 
Olhai assim, pela mãe
 
de Tereza, Ninha e Dôra
 
embora minhas irmãs
 
nossa mãe em nós
 
não é a mesma
 
 
 
Olhai também, pelo vosso amor
 
pela mãe de Cessa Lenine: Geni Slompo,
 
de José, Ziadir, Francisco
 
de Maria, Ana, Antônio
 
de Nhô, Raimundo, Júlio
 
de César, Carlos, Débora
 
de Cristina, Beni, Álvaro
 
de Ender, Sílvia e Jobim
 
de Patrícia, Elber, Adélia
 
de Henrique, Paulo, Marcos
 
de Aroldo, Marlene, Sabrina
 
de Helena, Delma, Nádia
 
de Fátima, Lúcio, Roberto
 
de Élson, Márcio, Vânia
 
de Luiz, Rosana, Camila
 
de Edson, Gilvan, Mauro
 
de Marcelo, Oscar, Fernando
 
de Célio, Monte, Cruz
 
de Iris, Bruna, Malu
 
de Beca, Ângela, Junice
 
de Lira, Danilo, Lauro
 
(__________________) espaço reservado para
 
o nome a quem se está lendo agora este poema
 
 
 
Dessa maneira
 
pelas mães de todos meus inimigos
 
próximos e amigos
 
 
 
Pelas mães esquecidas
 
pelas mães de filhos mortos
 
em águas de rios
 
guerras distantes
 
pelas mães de filhos
 
calcinados, leucêmicos
 
tuberculosos, aidéticos
 
 
 
Pelas mães de filhos loucos
 
que partiram em busca da graça
 
pelas mães de bons filhos
 
sentados sozinhos na praça
 
pelas mães de filhos sem pais
 
homens que partiram por força
 
da guerra, da fome
 
do êxodo rural
 
da falta de emprego
 
falta de força no coração
 
Pelas mães discriminadas
 
de filhos desgraçados
 
pelas mães de filhos abandonados
 
em orfanatos, calçadas…
 
pelas mães de filhos natimortos
 
 
 
Nossa Senhora de Nossas Mães
 
olhai por todas elas
 
e, principalmente, em atenção
 
a mulher de ventre vazio
 
que nunca pode/rá ser mãe.
Sandro Lucose com sua mãe, dona Terezinha

Sandro Lucose com sua mãe, dona Terezinha

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