ADVOGADO SEBASTIÃO CARLOS: Ussiel Tavares, seguramente o advogado mais influente na política da OAB nos últimos quase vinte anos, traçou um retrato real do que é hoje lamentavelmente a política na entidade dos advogados em Mato Grosso

Ussiel Tavares

Ussiel Tavares

A OAB E A SINDROME DA SAÚVA – II

Sebastião Carlos

 

Então, como disse, não se constituiu em nenhuma novidade o contido na entrevista publicada em 1º de março deste ano no site MídiaJur, e difundida em outros veículos. O grande valor, porém, do que foi dito é que o foi por um grande conhecedor da causa. Não por um oposicionista que vê os traços do mal pelo lado de fora. E assim não tem conhecimento da totalidade do mal a ser combatido. Não. O entrevistado durante vários anos vivenciou e até dele se beneficiou. Diria mesmo, até prova cabal em contrário, ter sido ele um dos grandes responsáveis pela existência dos males que agora ataca. Antes tarde do que nunca, é verdade. Mas esse reconhecimento não nos impede de dizer que, podendo ter denunciado e pelo menos tentado acabar com o mal quando tinha o poder na mão, não o fez. Salta aos olhos que nos longos anos em que esteve no comando, ou que inegavelmente exerceu a sua forte influencia, poderia ele ter contribuído para corrigir os hábitos que agora com veemência denuncia. A entrevista é seguramente um sinal, ainda que isto não tenha ficado explicito, de um mea culpa numa tentativa de agora se penitenciar. E, talvez, se reposicionar no quadro político da categoria profissional. Tardiamente, repito. Mas é preciso reconhecer que a imensa maioria dos homens é produto de seu meio e do seu tempo. Por isso, nada melhor que deixar que a História os julgue.

Mas quero dizer que Ussiel Tavares, seguramente o advogado mais influente na política da OAB nos últimos quase vinte anos, traçou um retrato real do que é hoje lamentavelmente a política na entidade dos advogados em Mato Grosso. Assim, nada melhor que ouvir quem conhece o mecanismo por dentro, quem dele participou, quem dele usufruiu, quem nele viveu seus meandros. Estes são os que realmente podem falar com conhecimento de causa. Os processos sociais e jurídicos – estamos assistindo isso agora em âmbito nacional – dão grandes passos com tais espécies de depoimentos. Daí o grande valor dessa entrevista.

Por tais razões é que começo esta série de artigos antes das eleições deste ano, dando a palavra, com tópicos meus, ao várias vezes presidente da OAB:

  1. Porque e para que ser Presidente e membro do Conselho:

Alguns podem achar que o presidente da OAB usa o cargo para captar clientes. É lógico. […]. Eu sempre falo: a melhor coisa que aconteceu na minha carreira como advogado foi ter sido presidente da Ordem. Porque era lógico que você, como ex-presidente da Ordem, consegue abrir portas no Judiciário, nos órgãos estatais. […]. Um advogado oportunista pode usar a OAB para captação de clientela.

  1. Quanto custa ser presidente:

É um gasto imensurável. O poder econômico é requisito fundamental para poder se lançar à disputa. […]. Uma campanha pelo grupo de situação não sai por menos de R$ 500 mil. É muito dinheiro para quem de dispõe a largar o escritório para se dedicar a um cargo não remunerado.

  1. Quem paga a campanha:

[Um exemplo:] Você tem um cliente que dá uma aeronave para você viajar. […]. Qual o perigo disso? É que interesses estranhos à Ordem venham interferir em alguma candidatura.

  1. A ficha limpa na OAB:

A falta de transparência sobre a origem destes valores arrecadados é um fator que coloca em risco a independência da OAB-MT, […] pode facilitar o ingresso de pessoas mal-intencionadas no alto escalão da seccional. […]. A gente é contra políticos fichas-sujas, mas a nossa regra eleitoral não prevê isso.

  1. A transparência:

Há algo errado no fato de os postulantes ao cargo “torrarem” cifras milionárias em uma campanha sem ter, em tese, qualquer expectativa de retorno desse montante. […]. A OAB é uma entidade comprometida com a transparência, com os princípios democráticos, mas esse discurso só é usado para os outros.

  1. Qual o critério usado para “montar” a chapa:

[…] os líderes dos processos eleitorais […] se propõem a bancar grande parte da campanha e os outros, se quiserem, vem atrás. Há casos de cargos de conselheiro federal, cargos de diretoria que, na arrecadação de campanha, se criaram critérios diferenciados para estes cargos. Não está se falando em quem é mais representativo ou quem tem mais condições de exercer tal cargo, mas quem tem mais poderio financeiro para poder ocupar estes cargos.

São de fato declarações fortes, graves, contundentes e impactantes que não foram contestadas nem pela atual direção da OAB nem pelas candidaturas oriundas do “grupo” e infelizmente não repercutidas pelos demais interessados. Não importa que outras afirmações feitas pelo ex-presidente nessa entrevista não tenham tido valor para ele mesmo como, por exemplo, disse que não participaria da campanha deste ano, mas já em 27 de agosto o mesmo site noticiava o seu entusiasmado apoio a um candidato. Que dias depois desistiria.

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         Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e professor.

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