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ADVOGADO SEBASTIÃO CARLOS: O PT conta com pessoas inteligentes, sem dúvida. Não é possível que, somente agora, desde 1992, o impeachment passou a ser golpe. Como se percebe, a estratégia de defender a ideia de que está havendo um golpe é muito interessante e lucrativa. Trata-se, na verdade, do golpe do “golpe”

Sebastião Carlos, hisstoriador, em registro da fotógrafa Hegla Oleiniczak

Sebastião Carlos, hisstoriador, em registro da fotógrafa Hegla Oleiniczak

 

“Golpe”: o grande golpe do golpe

Sebastião Carlos

 

Tenho grande admiração por George Orwell (1903-1950), pseudônimo de Eric Arthur Blair. Jornalista, romancista, ensaísta é certamente um dos maiores nomes da literatura de língua inglesa no século XX. Ainda na juventude li dois de seus livros que estão entre os melhores já escritos em nossa época. Neles reúne, com grande talento, a ficção e a fina análise política. Mais tarde voltei a lê-los, e o mesmo interesse e surpresa da primeira leitura se repetiram. “1984”, o romance da ucronia do totalitarismo, e a “Revolução dos Bichos”, a novela fábula de um tempo sempre recorrente.

Por que me veio à mente essas duas obras? É que o momento político que estamos vivendo parece ter saltado da pena de Orwell, como se ele estive, quase setenta anos atrás, prevendo sobre o Brasil de hoje. Em “1984” é descrito um mundo em que os detentores do poder manipulam os fatos, transformando a mentira em verdade, para beneficio próprio. E o maior interesse será sempre o de manter o poder a todo custo. “A linguagem política, destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez.” E o que se assiste diante do quadro político institucional do impeachment? Insistentemente, como um tema único, de modo vigoroso e constante como uma ladainha, o governo e seus aliados vêm batendo na tecla de que o impedimento da presidente trata-se de um golpe. Não basta a previsão constitucional do artigo 85, e seus incisos V e VI, não foi suficiente que o rito processual tenha sido definido pelo STF, a mais alta instancia judiciária, e nem que não se pode ignorar que no Parlamento nacional estão representantes eleitos, inclusive os defensores do governo, e, portanto com legitimidade. Não. Nada disso vale, por mais evidentes que o sejam. Trata-se de um “golpe” e ponto final. É preciso fazer com que a mentira se transforme em verdade. E como aquele personagem histórico de triste memória insistiu, dessa vez em defesa do autoritarismo: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.” Goebbels sabia muito bem a razão dessa sua afirmativa, já que conseguiu dela tirar a prova prática.

A “teoria” do golpe não é nova. Aqueles que imaginavam ficar no poder para sempre quando se veem ameaçados de dele serem apeados sacam da algibeira a expressão. Collor chegou a reclamar de um mal definido “Sindicato do golpe”. Não teve maior repercussão por que lhe faltavam as “linhas de transmissão” na sociedade que o PT soube criar. Mas não podemos deixar de lembrar que Collor igualmente recebeu apoio de inúmeros juristas, inclusive de ex-ministros do STF, de empresários etc. Faltou-lhe, contudo, apoio da opinião pública. E foi o fim. Como agora. Na ocasião, 68% do eleitorado entrevistado lhe dava um governo entre ruim e péssimo. O argumento contra Collor era a de que a legitimidade das urnas não o colocava acima da ordem legal. E, por isso, caiu. Este entendimento é, em essência, a base da Democracia, na qual, ninguém está acima da lei. Do mesmo modo que os mandatários têm obrigação ainda maior que o cidadão comum para se manterem dentro dos parâmetros legais. Mas se isto parece tão obvio, por que esta paradoxal insistência em dizer que o impeachment é golpe? E de que “não vai haver golpe” [com o que concordamos todos].

A questão, a meu ver, é bem outra. Massificar a ideia de que haverá um golpe caso o impeachment seja aprovado trata-se mais de uma estratégia política, do que a expressão de uma crença real na ilegalidade do impedimento em curso. Em outras palavras, as lideranças mais expressivas do PT sabem perfeitamente que o impeachment não é golpe. Afinal, entre 1992 e 2003, até chegar ao poder, o PT protocolou mais de cinquenta pedidos de impeachment. Nessas ocasiões, a palavra “golpe” jamais foi usada contra o PT. Seus adversários sempre entenderam que se tratava do exercício legitimo de um direito constitucional muito embora, claro, com eles não concordassem. Nem mesmo quando foi desencadeada uma intensa campanha nacional sob a consigna de “Fora FHC”, mal ele havia tomado posse no segundo mandato. E nesse caso, isto sim, poderia claramente ser considerado uma tentativa de golpe, pois sequer nem mesmo havia um pedido em andamento na Câmara dos Deputados.

Ocorre que o lulopetismo sonhava com a hegemonia quase que absoluta no país. Até bem pouco, está nos jornais, se dava como favas contadas a eleição de Lula em 2018, e, claro, a sua reeleição na quadra seguinte. Assim, “nunca antes na história deste país” um grupo político ficaria tanto tempo no poder. Essa hipótese era quase uma certeza absoluta no campo do lulopetismo. E não se diga que tal possibilidade não existisse. Houvesse sucesso na economia, com uma administração eficiente e competente, e diante de uma oposição acovardada e temerosa da força popular do “grande líder”, tal fato se estava no horizonte e ela causava calafrios em muitas cabeças pensantes. Mas, ah! a roda da História. E algumas vezes ela é implacável.

O lulopetismo está agora diante de um abismo que pode, não digo tragá-lo definitivamente, mas seguramente varrê-lo para um canto da política, dele fazendo um grupamento minoritário sem maior expressão. Esse o grande e real temor. A catástrofe que se avizinha tem a força inexorável das grandes tempestades. Deixar o poder por uma derrota nas urnas são contingencias naturais na Democracia, porém, ser dele despejado pela força de uma legislação soberana e democrática, como é a Constituição, isto representa uma catástrofe. É pois diante da iminência de sofrer uma humilhação histórica, sustentada pela maioria esmagadora da população, é que surgiu a “ideia genial” de se afirmar aos quatro ventos de que está existindo um “golpe”.

Sabem que o mandato da presidente esta agonizante. Mesmo que o impeachment não seja aprovado. As ruas já sepultaram esse mandato e a ultima pá de cal foi lançada na votação havida na Câmara. Assim, a intenção da cúpula do poder não é salvar Dilma Rousseff, pois sabem que ela já não tem capacidade de governabilidade. O objetivo agora é manter à tona Lula e os que lhe são próximos. Em outros termos: impõe-se o resgate dos responsáveis pelo desastre. Sabem que sem Lula não existe PT.

A “teoria do golpe” tem, pelo menos dois claros objetivos. Por um lado, congela o debate interno no PT e blinda a liderança de Lula, enquanto mantêm hipnotizados os militantes petistas criando a lenda do “voltaremos”. De igual modo, será uma forma de manter a hegemonia de Lula sobre setores da esquerda. Portanto, a denúncia sobre a existência de “golpe” e de “golpistas” tem o claro objetivo interno de manter unida, no após Dilma, as forças em derredor de Lula e do que restar do PT. Funcionará como um mantra, sob o qual se lutará para a “retomada do poder”. Será o lema para o reagrupamento. Sentindo-se vítimas de um golpe manterão esse ponto de fé comum.

De outra parte, para efeito externo, estimula-se a síndrome da vitimologia petista. Por anos ouviremos que o PT foi vitima das “elites”, das “forças do atraso contra o povo”, dos “fascistas” etc, etc. Este será o lema da bandeira de luta, por todos os tempos. Para a área de influencia do PT será tanto uma forma de autoilusão, compensatória das angustias de quem perceberá as frustrações em que se transformou o partido e o seu governo, como num mote, espécie de imã, a tentar juntar os pedaços perdidos. Será a forma de, na vida subsequente, tentar minorar e, ao longo do tempo, fazer esquecer os impactos causados tanto pela corrupção deslavada, da incompetência administrativa, como das políticas de mero estimulo ao consumo.

Aí está a justificativa para a narrativa de existência de um “golpe” em curso. O PT conta com pessoas inteligentes, sem dúvida. Não é possível que, somente agora, desde 1992, o impeachment passou a ser golpe. Como se percebe, a estratégia de defender a ideia de que está havendo um golpe é muito interessante e lucrativa. Trata-se, na verdade, do golpe do “golpe”. E como o slogan está sendo repetido com insistência muitos estão acreditando que se trata de coisa verdadeira. Nunca será demais voltar a Orwell: “A ideologia anima os homens padronizados, que pensam em slogans e falam em balas de revolver”.

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalh.o é advogado e professor

 

1 Comentário

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  1. - Responder

    A revolução dos Bichos de G. Orwell , é boa referencia para narrar oque fez o pt no poder . Acho que ” Dias na Birmania” do mesmo autor , tambem é uma boa comparação para descrever esse ambiente claustrofóbico que nosso país vive atualmente.

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