gonçalves cordeiro

ADVOGADO SEBASTIÃO CARLOS: O lulopetismo foi hábil, isto sim, em propaganda. Criou frases e slogans. Conseguiu transformar a falácia em alimento cotidiano do governo e fez da hipocrisia a moeda comum e mais usual da política. Assim, enganou a tantos, por tanto tempo. Com esse objetivo, criou o lema – “nunca antes na história deste país” – repetido à exaustão. Um arrematado exemplo de arrogância, sem dúvida.

Sebastião Carlos

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… arrogância dez

Sebastião Carlos

 

Ao lado da defesa da ética e da moralidade pública, o PT fez alarde da competência administrativa e da capacidade de gestão que os quadros do partido supostamente possuiriam. Ao longo do tempo, desde a sua fundação, Lula e seus partidários foram os arautos da intransigência na defesa dos bons costumes públicos. Pregaram, com altivez e determinação, que um dia o medo seria vencido e um tempo novo nasceria para o país já tão desesperançado.

“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. E finalmente, após tanta luta, chegou o grande dia. E o que resultou do sol que passaria a brilhar no horizonte?

A esperança que imantou a juventude, os trabalhadores, as donas de casa, camadas da classe média, a universidade, setores significativos do empresariado e da inteligência brasileiras, em que ralo ela se escoou? A coerência e a bravura foram as primeiras a serem abandonadas. Todos aqueles indivíduos que o PT combateu ao longo dos anos, transformando-os em ícones daquilo de que pior existia no país, foram incorporados ao governo: Sarney, Maluf, Collor, Renan, Jader Barbalho, para só citar alguns dos mais notórios. Nos Estados a coisa, por óbvio, não deixou de ser diferente. O rebotalho político integrou-se alegremente ao lulopetismo. Daí que não veio a tão almejada e propagada reforma política. E como então, com essas alianças, falar-se em ética e moralidade publicas?

Da mesma forma, como poderia vir a tão apregoada reforma tributária e financeira? O grande empresariado, permanente beneficiário das benesses do Estado com as renuncias fiscais, com os inúmeros incentivos financeiros, os aportes do BNDES a custo zero, continuaram a gozar das mesmas regalias, e até mais. Talvez muito mais ainda que antes, mesmo se se recuar ao tempo do regime militar. Os bancos nunca lucraram tanto como hoje. Aliás, isso foi repetido inúmeras vezes pelo próprio Lula.

Onde está a alardeada competência administrativa ou o rígido respeito às regras da gestão eficiente, tão alardeada antes da chegada ao poder? Não existe nenhuma grande obra de infraestrutura. [Ah! o “nunca antes” perante JK]. Das mais de 29 mil obras anunciadas pelo famigerado PAC, da qual Dilma foi chamada de “a mãe”, só um pouco mais de 16% foram concluídas. Das existentes, sobretudo aquelas ligadas à Copa e às Olimpíadas, não existe uma sequer em que os órgãos de fiscalização não tenham apontado superfaturamento, distribuição de propina, formação de cartel, atraso nos cronogramas, isto sem dizer daquelas que dificilmente serão concluídas. A transposição do São Francisco – que Lula jurou emocionado que era a realização de seu governo e que a concluiria – está empacada. A maior empresa brasileira dos últimos cinquenta anos, a Petrobrás, hoje é mais noticia no campo penal do que no econômico.

Fez água a tão decantada “missão social”. Foi o grande empuxe “ideológico” utilizado para se alcançar o poder. A propaganda de que camadas inteiras da população mais pobre haviam adentrado à sociedade de consumo, hoje se vê, não passou do sonho de uma noite de verão. O crescente desemprego e a inflação em escala ascendente estão frustrando todas as eventuais conquistas. O “Pátria educadora” se tornou uma balela quando se vê que os recursos orçamentários não fluíram como o prometido, e até mesmo foram cortados. O pagamento de bolsas de estudos, de melhoria do salário dos professores e das condições do ensino, de um modo geral, não passou de miragem. É verdade que espalharam cursos pelo país, mas a infraestrutura da educação está em frangalhos. A tão aspirada reforma da educação não saiu do papel.

Enfim, ao final do longo e pesaroso périplo do naufrágio das nossas esperanças, cabe a pergunta: qual o legado do lulopetismo? Nem mesmo o melhor dos videntes seria capaz de, dez anos atrás, prever a que ponto aquele sonho inaugural ficaria tão roto, exalaria tanto fedor, em que, de todos os pontos em que se possa debruçar o olhar, só miasmas emanariam. O lulopetismo se desmilinguiu ao longo desses anos de poder.         Enquanto se tratava do afastamento de alguns de seus melhores quadros fundadores a situação foi vista com displicência e apodados de traidores os que pulavam fora do barco furado. O distanciamento agora é de setores importantes e decisivos da sociedade. O governismo, no entanto, está levando ao extremo a tática da avestruz. Essa ave não corre da tempestade, escolhe enfiar o pescoço no chão. Só existe uma explicação para esse comportamento: é que o lulopetismo nunca imaginou que um dia, mais cedo ou mais tarde, seria apeado do poder. Como, aliás, é da essência da Democracia. Imaginava que nele se poderia eternizar. O “Mensalão”, a compra de parlamentares, foi claro exemplo dessa tentativa.

A arrogância sedimentada impede que a realidade seja admitida. Para dela tentar fugir, inventa-se slogans estapafúrdios como este de que o pedido de impeachment é “golpe”. Quem não concorda com o petismo é “fascista”, é contra o Brasil, é antidemocrático, é golpista. E nesse balaio incluem as “elites paulistas”, a classe média, juízes, procuradores da República, OAB, a imprensa, enfim Deus e todo mundo que já não mais presta vênias ao “grande líder”. Por essa arrogância é que, o que hoje ainda resta do lulopetismo, tem dificuldades intransponíveis para admitir os próprios erros. A arrogância intrínseca não permite a convivência democrática, não admite a alternância do poder, não aceita que a divergência faça parte do jogo político. Ora, essa característica comportamental traz em seu cerne a própria morte.

O lulopetismo foi hábil, isto sim, em propaganda. Criou frases e slogans. Conseguiu transformar a falácia em alimento cotidiano do governo e fez da hipocrisia a moeda comum e mais usual da política. Assim, enganou a tantos, por tanto tempo. Com esse objetivo, criou o lema – “nunca antes na história deste país” – repetido à exaustão. Um arrematado exemplo de arrogância, sem dúvida. Em “Lula e Mefistófeles”, livro recém-publicado, Norman Gall registra que “Lula teve suas escolhas“, e elas, “refletem uma personalidade muito complexa”. O autor afirma, com crueza e precisão, que essas escolhas são de “alguém cuja ascensão espetacular gerou uma arrogância que o fez perder seu norte moral“. Essa arrogância, que é fatal na política, assinala a enorme dificuldade que o lulopetismo está tendo para aceitar a crescente rejeição que lhe está dedicando a sociedade.

Um antigo provérbio judaico ensina que “A arrogância é o reino – sem a coroa”. A arrogância de Lula e de seus seguidores impede a autocrítica e isso obstaculiza definitivamente a hipotética possibilidade que poderia almejar de, após a derrota, recuperar-se e recomeçar. Tudo a indicar que da época lulopetista só sobrará mesmo o reino de frustrações. Mais uma vez, cavaleiros andantes de triste memória levaram o povo brasileiro a inutilmente sonhar.

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e professor.

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