ADVOGADO SEBASTIÃO CARLOS: É claro que existem descontentes com os rumos da OAB em Mato Grosso, sobretudo pelo fato de ser o mesmo grupo durante todos esses anos a comandar, mas esse é um descontentamento sempre verbalizado em termos pessoais e sem disposição de formalizar um enfrentamento real, concreto, organizado. Um descontentamento que, geralmente, parte dos advogados mais antigos na profissão. Mas isso para por aí, e no dia da eleição, sem muita convicção, acabam votando.

Sebastião Carlos

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A OAB E A SINDROME DA SAÚVA – I
Sebastião Carlos

Antes que se extraia qualquer ilação inadequada, explico-me. A saúva é uma das várias espécies de formigas com características interessantíssimas. Como de resto são esses insetos. E uma delas é a de que, a cada três anos depois de iniciado o formigueiro, as içás saem em voo nupcial. Sempre na primavera, em grande número, fazem o voo, acasalam-se e em seguida caem ao chão. Onde se formarão novos formigueiros.
Não me sai da cabeça essa imagem quando, igualmente a cada três anos, assiste-se a disputa eleitoral para a sucessão no Conselho da entidade, a que há mais de trinta anos pertenço. Sempre no ano em que haverá a eleição dá-se inicio a autentico azáfama eleitoral. É um corre-corre, é uma verborragia intensa. Passado, porém, esse momento, o silencio volta a reinar. Mas … a cada três anos, recomeçam-se os voos. Como há mais de duas décadas prevalece a hegemonia do mesmo grupo no comando da entidade, uma das características que marca a maioria das candidaturas é que elas são oriundas de “rompimentos”, de “dissidências”, quando os descontentes por não terem sido contemplados pelo beneplácito do “núcleo duro”, digamos assim, se apresentam. Então surgem as diversas candidaturas em que, não raro no curso da campanha, boa parte acaba desistindo. A oposição real raramente tem se atrevido a por as caras, tão insignificante vem sendo aqui. Reformulo a frase anterior somente para dizer que quero me referir à inexistência de uma oposição formal, com disposição de marcar um posicionamento distinto, diferenciado e propositivo durante todo o mandato precedente e não apenas em época eleitoral. É claro que existem descontentes com os rumos da entidade, sobretudo pelo fato de ser o mesmo grupo durante todos esses anos a comandar, mas esse é um descontentamento sempre verbalizado em termos pessoais e sem disposição de formalizar um enfrentamento real, concreto, organizado. Um descontentamento que, geralmente, parte dos advogados mais antigos na profissão. Mas isso para por aí, e no dia da eleição, sem muita convicção, acabam votando.
Este ano temos várias candidaturas, em sua quase totalidade oriunda do mesmo campo político. Uso essa expressão para não ter que utilizar o termo “do mesmo grupo”. É que tenho por ele certa repugnância quando utilizado para designar uma ação política dentro de uma instituição representativa de uma categoria profissional como a dos advogados. O sentido do termo, no caso, reproduz o que existe de mais lamentável na vida da política partidária, pois significa que os interesses pessoais, ou grupais, se colocam acima dos interesses mais amplos e gerais da categoria profissional a que a diretoria tem o dever de representar.
Se não li a todos, posso dizer que li a maioria dos manifestos, entrevistas, declarações, “propostas e promessas”, palpites etc dos candidatos e de seus apoiadores. Dentre tantas matérias ultimamente divulgadas na imprensa, uma me chamou particularmente a atenção. Nela se faz uma radiografia quase perfeita do que existe de mais deplorável no processo político eleitoral da OAB. No que nela é dito não se constitui, porém, em nenhuma novidade. Há anos os advogados politicamente mais conscientes vêm apontando como uma mácula imperdoável numa entidade que se propõe a defensora das instituições democráticas. Eu mesmo publiquei na imprensa, entre junho e julho de 2008, [Circuito Mato Grosso] uma série de artigos tratando do tema. Posteriormente, na companhia de um pequeníssimo número de profissionais, tentamos articular um movimento a que denominamos de “OAB Democrática”, em cujo manifesto de lançamento denunciávamos precisamente essa questão. Infelizmente, o movimento logo se esfacelou, deixando de existir como tal. [continua].

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e professor. Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (RJ) e da Sociedade Brasileira de Direito Constitucional (SP).

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