ARQUITETO JOSÉ ANTONIO LEMOS: A questão da ferrovia em MT vai muito além da simples implantação de trilhos

 

OS TRILHOS DA UNIDADE
Por José Antônio Lemos

A reativação do “Fórum pela Ferrovia em Cuiabá” e a incorporação dos governadores Pedro Taques e Geraldo Alckmin ao movimento trouxe um novo alento a esse projeto que já foi um sonho e hoje é uma prioridade imperiosa, vital aos mato-grossenses. Ao Sudeste interessa que a produção mato-grossense, ou parte dela, continue escoando pelos seus portos e que sua produção chegue ao mercado do oeste brasileiro de forma mais competitiva. A continuidade da cobrança dos mato-grossenses é indispensável, mas o apoio de São Paulo é fundamental, pois a força paulista move montanhas, ajudou a construir a ponte rodoferroviária sobre o rio Paraná e pode agora dar força à sequência do traçado original da Ferronorte, passando por Cuiabá.
A questão da ferrovia em Mato Grosso vai muito além, e bota além nisso, de uma simples implantação de trilhos. Ao mato-grossense ela significa maior competitividade para sua produção, com a redução de perdas e fretes, menores impactos ambientais e, em especial, a redução nas perdas de preciosas vidas ceifadas ao longo de rodovias já absolutamente incapazes de dar vazão às demandas do estado no transporte de cargas de ida e de volta. A alguns anos o número de mortos nas estradas federais em Mato Grosso chegava a uma tristíssima “Boite Kiss” por ano. Espalhadas pelo ano, não aparecem a não ser para os muitos que choram a cada dia uma fatalidade ou grave sequela.
Mas vai muito além ainda da solução logística. Enquanto o povo quer produzir e reduzir suas dores, tem gente poderosa usando esse grave problema para fazer geopolítica, buscando dividir o estado em favor de interesses pessoais ou de grupos. Por trás das soluções ferroviárias apresentadas na verdade escondem-se no mínimo 3 projetos para o futuro de Mato Grosso. Um mantem o traçado original da Ferronorte reforçando a coluna vertebral do estado que é a BR-163 até chegar aos portos amazônicos, prevendo a variante para Porto Velho e a possibilidade de se chegar ao Pacífico, sem prejuízo da construção dos outros dois projetos e sem himalaias, araguaias ou sapucaís a vencer.
Por sua vez, os outros dois projetos isolam o norte do sul do estado com a exclusão da capital do traçado e a geração de duas economias separadas. Para isso contam com a interrupção da ferrovia em Rondonópolis, com a internacionalização do Marechal Rondon que não sai e a duplicação da 163 que só se desenvolve de Posto Gil para cima e de Rondonópolis para baixo. Um destes projetos divisionistas é a Fico que corta transversalmente Mato Grosso interceptando a BR-163 em Lucas do Rio Verde, levando a produção do Médio Norte do estado para Goiás. O outro começa em Sinop e segue o eixo da 163 até Miritituba e Santarém, mas é de Sinop para cima. A diferença é que um quer a capital do que seria um novo estado em Lucas e outro prevê a capital em Sinop.
Não pode ter como prioridade novas unidades federativas um país cuja população já entrega ao estado em impostos cerca de 40% de tudo o que produz, apenas para manter estruturas político-administrativas perdulárias, ineficientes e corruptas, que nada devolvem em termos de infraestrutura, serviços e equipamentos públicos. A última novidade é que Mato Grosso enviou para a União ano passado 9,0 bilhões de reais e recebeu 7,0 de volta. Estamos hoje entre os 13 estados que pagam pela manutenção de outros 14 estados que não se mantêm sozinhos. Com os 2,0 bilhões de prejuízo dava para trazer os trilhos até Cuiabá e ainda seguir um bom trecho em direção à Nova Mutum que está a 460 km de do maior terminal ferroviário da América Latina, em Rondonópolis. Mas querem uma de 1.200 km. Não dá para ficar quieto. Mesmo tendo muito a corrigir, Mato Grosso é um estado que deve ser imitado, não dividido!

JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é conselheiro do CAU/MT e professor universitário. joseantoniols2@gmail.com

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