ADVOGADO EDUARDO MAHON: Pedro Taques tem uma oposição organizada. É pequena, mas barulhenta. É bom que haja oposição! Pedro Taques deve agradecer pela oposição que tem, com as pessoas que a integram, com as intenções que demonstram, com o histórico que apresentam

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Agradeço a oposição

Eduardo Mahon

 

Silval Barbosa não tinha oposição. Sem ninguém que colocasse freios, que fiscalizasse, que pressionasse, deu no que deu. Ele está preso, juntamente com outros integrantes que são confessos. Alguns elementos da quadrilha celebraram acordos de delação premiada, onde descreveram o funcionamento da organização criminosa e entregaram bens obtidos ilicitamente.

Nenhum governo se sustenta sozinho, como todos sabem. É necessário o amparo parlamentar. Tanto que, pouco tempo depois do desbaratamento da quadrilha, o que se viu foi o envolvimento de outros parlamentares. Acredito que ainda faltem alguns outros.

Sobretudo quando o assunto se trate de incentivos fiscais, onde tudo indica que empresas se beneficiaram ilegalmente, por intermediação de parlamentares que participaram do butim ao Estado de Mato Grosso. É que algumas posições, como as comissões parlamentares de inquérito, garantem que políticos possam pressionar empresários e celebrar acordos com executivos da administração pública, como se vê em todo o território nacional.

Pedro Taques tem uma oposição organizada. É pequena, mas barulhenta. É bom que haja oposição! O governador deveria agradecer. Demarca a diferença entre grupos. Ademais, bem ou mal-intencionados, deputados e políticos opositores dão uma assessoria gratuita ao governador, apontando as muitas falhas que são naturais em qualquer administração.

Assim sendo, oposição não se lamenta, comemora-se. Quando deputados da oposição, além do posicionamento legítimo, assumem que estão em grupos políticos opostos, fica muito mais fácil ao eleitor saber distinguir. Com todos os percalços, todas as frustrações, todas as reservas ao governo Taques, o eleitor faz a si mesmo uma pergunta básica: afinal, o que é melhor: um governo corrupto como o de Silval Barbosa onde não havia oposição ou um governo como o de Taques em que há resistência parlamentar?

Alguns equívocos devem ser debelados, já de início. O primeiro deles é identificar todos, indistintamente, que participaram do governo Silval Barbosa como corruptos. Isso não é uma verdade. Passa longe disso. A grande maioria dos que integraram o governo, seja lá de que escalão pertencessem, são honestos e não merecem a tatuagem do opróbio. Essa é uma simplificação perigosa, até porque no atual governo tucano há um caso emblemático de corrupção.

Isso não significa que o governo todo é corrupto. Longe disso. Outro erro é imputar à oposição a mesma pecha de corrupta. Como já dito, ter oposição é bom. Eu diria que é ótimo. O que é um sinal claro de esquemas escusos é a falta de oposição. Um dos maiores indícios de que o governo Taques permanece longe do ilícito é a oposição que recebe. Alguém já dizia que os adversários nos qualificam. É esse mesmo o caso.

Outro equívoco que não pode ser cometido é identificar uma agremiação partidária com uma quadrilha. O PT, por exemplo, tem presidentes e tesoureiros presos e condenados, recebeu dinheiro ilicitamente do exterior, intermediou mesada a parlamentares, arrecadou dinheiro para campanhas eleitorais por meio de chantagem, mas ainda assim, tem muita gente honesta que nunca participou desse tipo de esquema criminoso.

Cabe aos filiados avaliarem se apoiam ou não os atos dos dirigentes. Aliás, se os partidos não podem ser avaliados por seus dirigentes, como o seriam? A solução é simples: a militância que homenageia criminosos torna-se igualmente repreensível, muito embora não responsável. Por isso que os partidos devem se posicionar de forma rápida contra atos de seus filiados corruptos. Nesse item, todos os partidos, sem nenhuma exceção, precisam dessa autocrítica.

O governo Taques enfrenta uma dupla crise: a primeira é suceder o caos estadual causado por uma trupe que está processada e presa em penitenciárias, com vários membros confessos; a segunda é suportar a maior crise brasileira de todos os tempos. Alguns economistas do passado diziam que o Estado não quebra. Erraram obviamente. É claro que entes públicos podem sim ir à lona.

A irresponsabilidade de aumentos do funcionalismo sem o lastro financeiro necessário, pressão previdenciária sem base de contribuição, endividamento por obras inacabadas, além do próprio desvio criminoso, formaram um quadro que não se resolve facilmente. A despeito de tudo isso, todavia, ainda assim, não se pode classificar a oposição ou os partidos políticos como corruptos.

Pedro Taques deve caminhar para frente. Quem cuidará da gestão passada é o judiciário mato-grossense e, eventualmente, o sistema prisional. Mesmo que não devamos esquecer o passado, não dá pra manter nossa lanterna na popa. É preciso ter cuidado com generalizações para não ofender quem não participa de esquemas corruptos, nem tampouco para desprezar a oposição que dá uma consultoria gratuita. Meu pai sempre sacava uma palavra no dicionário para me orientar nos debates em que eu participava ou comentava: lhaneza.

Independente de lado, de convicção, de tudo… é preciso ter lhaneza no trato com terceiros. Pedro Taques deve agradecer, portanto, pela oposição que tem, com as pessoas que a integram, com as intenções que demonstram, com o histórico que apresentam. Politicamente, fica muito mais fácil identificar quem é quem.

Eduardo Mahon é advogado em Cuiabá (MT)

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