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ADVOGADO EDUARDO MAHON: Está aberta a temporada de caça ao pobre. Começou a campanha eleitoral.

Eduardo Mahon

Eduardo Mahon

Temporada de caça ao pobre
Por Eduardo Mahon

Está aberta a temporada de caça ao pobre. Você que anda de ônibus, cuidado! Haverá candidato prometendo ar-condicionado nos coletivos, respeito aos horários, ônibus aos finais de semana e passe livre. Você que não tem um dente na boca, alerta! Haverá candidato prometendo dentaduras novinhas em folha, policlínicas no bairro, operação de apendicite sem fila.
Você mora na periferia, atenção máxima! É aí que os políticos preferem atuar. Vão prometer um muro, rede de esgoto, luz elétrica, água tratada, escola nova, asfaltamento na rua e, de quebra, a regularização no cartório. Se você é pobre, sinta-se importante! Não demora muito e o seu celular pré-pago irá tocar – “olá, eu sou candidato e quero falar sobre a nossa cidade”, uma voz que você julgava extinta volta a aparecer.
Não é só isso. Você vai ver político no Facebook, pelo WhatsApp, rádio e televisão, vai escutá-lo até no carro de som como se estivesse vendendo pamonha. Nesses próximos seis meses, ser pobre será uma dádiva. Candidatos entrarão pela porta do seu barraco e tomarão café na caneca de lata amassada, sentarão no batente da sua porta e afagarão seu cachorro sarnento, carregarão no colo seus oito filhos desnutridos e chorarão pela morte do seu pai que não foi atendido na porta do pronto-socorro.
Ah, querido pobre… agradeça aos céus pela pobreza. Ninguém no mundo será mais paparicado por uma fotografia. Se você não tiver um ou dois dentes da frente, será uma espécime cassada pelo político como um troféu. Proteja-se, no entanto.
Esse luxo dura pouco. Você que é pobre procure saber quem é o político que vive em mansão e só aparece no fim do mundo em campanha eleitoral. Vote nele. Provavelmente é essa pessoa que manterá você na pobreza.
Mas olhe bem, não se apresse. Aparentemente, todos usam camisa azul. Nunca chegam de terno e gravata. Jamais andam de carros importados em época de campanha. Eu sei, eu sei: parece todo mundo igual. Mas é assim mesmo. A recíproca é verdadeira: para o político, pobre também é tudo igual. Eu tenho uma dica. Pegue aí papel e caneta. Você sabe escrever, né? Então. Anote aí. Na dúvida entre vários candidatos que andam suados, tomam o seu café, comem o seu pão amanhecido, observe quem o chama de irmão.
Não tem erro! O político que chama o pobre de irmão merece um voto de confiança. Ou vai falar que também veio da pobreza ou é um daqueles religiosos que vai aparecer no culto. Você que é pobre, não perca essa chance de se tornar irmão do político. Outra coisa. Está desempregado? Pare de reclamar. No período eleitoral, só fica sem trabalho quem quer. Agora, tem muito emprego. Vá ao comitê. Não falte. Pode ser qualquer partido, isso não importa. Vá todos os dias.
Em pouco tempo, estarão pagando 50,00 para carregar uma bandeira nas esquinas. E mais 50,00 sorrir. Tá vendo como é bom ser pobre? Você ganha um chequinho de 100,00 por semana apenas para ser feliz! E mais: leve seu marido, sua irmã, sua sogra e seus oito filhos. Não é uma benção? Bata na boca você que amaldiçoou a pobreza.
O político não suporta o mal-agradecido. É preciso ter orgulho de andar no ônibus lotado, de não ser atendido no hospital, de ter os filhos numa escola que vive em greve. Se não fosse isso, o que você diria ao político que vai te fazer uma visita? Vocês iriam discutir a qualidade do vinho chileno? Acaso iriam trocar impressões sobre a última viagem a Miami? Não seja burro.
Você não teria nenhum assunto em comum com o político. O candidato quer falar de problema. Ele precisa ter um problema pra resolver. Ou um problema para atacar o outro candidato. Não tem cabimento falar noutra coisa numa campanha, não é mesmo? Agora uma última observação. Você que é pobre, não esqueça! Guarde bem o santinho do político que te agradou, que te elogiou, que te abraçou. Dobre e coloque na carteira, junto com as sementes de uva cuspidas no réveillon.
Depois da eleição, você nunca mais verá o político, nem o derrotado, nem muito menos o eleito. Em seis meses, todo mundo vai esquecer se votou neste ou naquele. Então, convém guardar a foto com muito cuidado. Inclusive para lembrar em quem você pode confiar para continuar do jeito que está: pobre.

Eduardo Mahon é advogado, escritor e eleitor compulsório.

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