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Adorável perua

Duas caras
Adorável perua

Letícia Spiller muda o perfil de sua personagem na novela de Aguinaldo Silva e deixa de encarnar a vilã inescrupulosa, como estava previsto, para viver a cômica Maria Eva

O papel de Letícia Spiller em Duas caras seria de uma mulher sem escrúpulos, disposta a tudo para se dar bem na vida. Para não correr o risco de se repetir e tornar Maria Eva parecida com a interesseira Viviane, que interpretou em Senhora do destino, decidiu tentar um caminho diferente. Depois de uma conversa com o autor Aguinaldo Silva – que, segundo ela, pensou o mesmo –, decidiu carregar no humor. Com isso, além de garantir uma personagem diferente, conseguiu dar o tom farsesco que tanto valoriza. “Comédia cabe em qualquer situação”, afirma a atriz, que se destacou na Globo em 1994, como a espevitada Babalu, de Quatro por quatro.

Aos 34 anos, Letícia se orgulha da carreira que construiu na tevê depois da estréia como paquita no Xou da Xuxa, em 1988. A carioca de Copacabana cansou de receber respostas negativas para papéis em peças consideradas “sérias”. “Ninguém me aceitava porque não acreditava que eu seria capaz. Ralei para mostrar que já tinha formação teatral quando deixei o programa (da Xuxa)”, lembra a atriz, que ainda sonha em trabalhar com Gilberto Braga e Manoel Carlos.

Mesmo gravando Duas caras, Letícia faz questão de não se afastar dos palcos. Ingressou no Centro de Investigação Teatral, de Eduardo Wotzik, onde reúne-se com atores e diretores para estudos. Para ela, essa é uma maneira de se sentir segura com personagens mais densos. “Não existe essa história de lembrar da avó que morreu para chorar em cena. É discurso de quem não tem talento. O ator tem de entrar na emoção do personagem”, ensina.

Quando Eva foi escrita, a idéia era mostrar uma mulher interesseira e mau-caráter. Mas a situação se inverteu e hoje ela se transformou em um dos centros da comédia da novela. O que aconteceu?
A sinopse não induzia esse toque de humor. O programado era retratar uma pessoa interesseira, fútil, capaz de dormir com outro homem para conseguir seus objetivos. Conversei com Aguinaldo e disse que gostaria de fazer algo diferente da Viviane, de Senhora do destino. O perfil das duas era muito próximo. É claro que é ele quem decide, mas o próprio autor me avisou que já tinha pensado em outro rumo para Eva. Fui descobrindo esse caminho conforme recebia os capítulos. Só tento dosar um pouco o humor para não ficar exagerado.

Você vê exagero nas cenas da Eva?
Adoro papéis cômicos. Gosto de interpretações teatrais e acho que a comédia favorece muito esse comportamento. Comecei a idealizá-la com um toque de maldade. Fazer vilãs pesadas me preocupa, o humor dosa um pouco isso. Mas Eva foi se transformando em uma personagem fiel, leve, engraçada e que demonstra verdadeira loucura pela família. Não vejo problemas nesse tipo de exagero, porque ele funciona na hora de fazer rir. Pelo menos é isso o que vejo nas manifestações do público.

Como são essas manifestações?
As pessoas sempre brincam com o lado chique e fogoso dela. O brasileiro gosta de relações apimentadas, isso atrai a atenção dos telespectadores. Hoje mesmo estacionei meu carro e um guardador de rua ficou me zoando. Mas uma coisa que me surpreende muito é a identificação das mulheres com a personagem e o carinho das crianças. Acho que a Eva se tornou também a mãe que elas gostariam de ter. São crianças que não me conheceram como paquita, nem sabem o que é isso.

Algumas ex-paquitas tiveram dificuldades para se firmar na carreira de atriz. Como você lidou com esse rótulo?
É claro que as pessoas que se informam ou que viveram aquela época sabem que fui paquita, sempre vão saber, não vejo o menor problema nisso. Sofri preconceito no início. E muito. Consegui uma ponta, elenco de apoio mesmo, na novela Despedida de solteiro. Foi ótimo, mas vários profissionais me tratavam como a ajudante da Xuxa e só. Era difícil tentar um papel em algum espetáculo sério de teatro. As pessoas me enxergavam como a bonitinha que queria sucesso. Não sabiam o que eu já tinha feito.

E o que você tinha feito até ali?
Comecei a estudar teatro na escola. Mas não era só brincadeirinha, fui aluna do Colégio Sacré-Coeur de Marie, em Copacabana, no Rio, e lá eles valorizam muito as atividades culturais. A gente usava o auditório para fazer teatro como atividade para artes e português. Gostei tanto que aos 12 anos me inscrevi em um curso. Na época, fui aluna do Roberto Bomtempo. Fiquei estudando com o grupo durante um período longo e, aos 14, me tornei paquita. Já sonhava ser atriz e a fama que a Xuxa me trouxe me empolgou ainda mais para estudar. Aí me matriculei no curso Tablado e fui conciliando a escola, o Xou da Xuxa e as aulas de teatro. Saí do programa em 1991, mas só em 1994 consegui uma oportunidade boa na tevê. Desde então sou contratada da Globo.

Você recusou interpretar Jade, em O clone, e Mariana, em Coração de estudante, e recebeu uma suspensão. Isso prejudicou sua relação com autores e diretores da emissora?
Houve muita repercussão em cima dessa história. É claro que ninguém gosta de dizer não para a empresa que paga o seu salário, mas eu não podia fazer mesmo. O mais engraçado é que outras atrizes recusaram também. No caso de O clone, eu não era o primeiro nome da lista, era Ana Paula Arósio. O problema é que tinha acabado de raspar a cabeça e, na mesma época, liberaram o patrocínio para a peça O falcão e o imperador. Foi difícil para algumas pessoas entenderem que isso era fundamental para o meu crescimento. Sentia que precisava de mais consistência na carreira para não me tornar mais uma “lourinha sexy”. A empresa não tinha mesmo de entender isso, é uma relação comercial também. Sempre tive uma índole muito boa e isso ajudou para que tudo ficasse bem. Tanto que não demorou para eu confirmar presença em Sabor da paixão. E como protagonista.

Essa imagem de “lourinha sexy” trouxe problemas?
Não sou do tipo que diz que a beleza prejudica. Direcionei minha vida profissional para que isso fosse um trunfo, não um problema. Mas a gente pode ver por aí. Vários atores não são tão bons, demonstram não ter a menor vocação, mas, como são bonitinhos, conseguem se manter na carreira. Acho que cabe a cada um ultrapassar isso e mostrar a que veio. Por exemplo, quero trabalhar com alguns profissionais que não trabalhei ainda. E vou tentar conversar com eles sobre isso.

Antes de ser escalada para Amazônia – De Galvez a Chico Mendes, você demonstrou interesse pela minissérie para a autora Glória Perez. Não se importa com o fato de pedir trabalho?
Sou contratada da Globo desde a época de Babalu, quero mais é ser aproveitada em bons papéis. Até uma determinada época, as coisas fugiam do meu controle. Eu ia para onde a vida me levava. Agora acho que tenho a capacidade de correr atrás daquilo que tenho vontade de fazer. O ator tem de planejar a carreira também na tevê e não só no teatro. Me esforço para trabalhar no que quero e com quem gosto. Já tenho uma parceria excelente com Aguinaldo Silva, por exemplo. Se puder, quero estar na novela da Glória Perez e criar esse laço profissional com ela também. E há outras pessoas com quem me identifico, como Gilberto Braga, Manoel Carlos e Dennis Carvalho. Quero encontrar essas pessoas e dizer que sinto vontade de trabalhar com elas.

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Trajetória na tevê
Márcio de Souza/TV Globo – 3/9/07

Xou da Xuxa (1988 a 1991) – Pituxa Pastel

Despedida de solteiro (1992) – Debbie

Quatro por quatro (1994) – Babalu

O rei do gado (1996) – Giovanna Berdinazi

Zazá (1997) – Beatriz Soffer

Suave veneno (1999) – Maria Regina

Esplendor (2000) – Flávia Cristina Sampaio

Sabor da paixão (2002) – Diana Coelho

Sítio do pica-pau amarelo (2003) – Gavita

Kubanacan (2003) – Laura

Senhora do destino (2004) – Viviane

Amazônia – De Galvez a Chico Mendes (2007) – Anália

Duas caras (2007) – Maria Eva

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