ADEUS, DEMÓSTENES! – Como ele se comportava diante de suas vítimas? Era sempre o primeiro a se apresentar ao batalhão de fuzilamento. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, não é senador? Melhor dizendo, ex-senador.

Adeus, Demóstenes

Leonardo Attuch
Brasil 247

Esta terça-feira é o último dia de Demóstenes Torres (sem partido/GO) no Senado Federal. Mais uma vez, como tem feito todos os dias, ele deverá cumprir um ritual constrangedor: o de implorar pela clemência dos colegas, discursando diante de um plenário vazio. Um plenário que amanhã estará cheio para aprovar sua cassação por larga margem de votos.

Demóstenes conseguiu uma proeza. O relatório do senador Humberto Costa (PT-PE), que pedia sua cassação, foi aprovado por unanimidade no Conselho de Ética. Ato contínuo, o texto do senador Pedro Taques (PDT/MT) também passou de forma unânime pela Comissão de Constituição e Justiça. E no plenário, ainda que o voto seja secreto, muitos parlamentares, como a senadora Ana Amélia (PP-RS), já estão abrindo seus votos pela inevitável cassação.

Até outro dia, o parlamentar goiano era um dos mais admirados entre os seus pares. Demonstrava coragem na tomada de posições e convicções inabaláveis em defesa da ética. Pena que fosse só aparência. Demóstenes desonrou o Senado porque o foi o mais hipócrita de todos os parlamentares que o Brasil já conheceu. Ensina a sabedoria que se perdoa o pecador; o pregador, jamais. E o Demóstenes que, da tribuna, usava as vestes de Catão da República, fora dela participava do clube Nextel do bicheiro Carlos Cachoeira.

Não haverá perdão, nem futuro político para um fingidor desmascarado, como foi o senador goiano. Nesta segunda, da tribuna, ele pregou contra os julgamentos sumários da mídia e o furor condenatório da opinião pública. Disse que será vítima da maior injustiça já cometida pelo Senado.

Mas como Demóstenes se comportava diante de suas vítimas? Era sempre o primeiro a se apresentar ao batalhão de fuzilamento. E também a se oferecer para prestar declarações contra quem quer que fosse. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, não é senador? Melhor dizendo, ex-senador.

———————

OUTRA OPINIÃO

Se não tivesse morrido, Demóstenes cassaria o mandato do colega ex-Demóstenes sem hesitar

Josias de Souza
UOL

Ano: 2007. Dia: 5 de dezembro. Local: plenário do Senado. A cuia de concreto projetada por Oscar Niemeyer fervilhava. Do lado de dentro, uma guilhotina. Sob a lâmina, pela segunda vez, o pescoço de Renan Calheiros. Os senadores revezavam-se na tribuna. Entre todas as vozes, a de Demóstenes Torres foi a que soou mais draconiana. “Vou votar pela perda de mandato”, eis a última frase.

Ano: 2012. Dia: 11 de julho. Local: o mesmo plenário do Senado. A cuia emborcada para baixo volta a ferver. De novo, um cadafalso. Ao longo do dia, os oradores se alternarão no púlpito. Dessa vez, não se ouvirá a voz inapelável de Demóstenes. Irá ao microfone um impensável ex-Demóstenes. Com a cabeça a prêmio, pronunciará o mais constrangedor discurso do dia. Rogará aos colegas que lhe salvem o mandato.

Submetido aos rigores do Demóstenes de 2007, o ex-Demóstenes de 2012 é um personagem indefeso. Na quinta-feira (5) da semana passada, a caminho do patíbulo, o sósia de Demóstenes discursou para um plenário ermo. Distribuiu invectivas contra o colega Humberto Costa, relator da peça que o acusa de ter maculado o decoro parlamentar.

O ex-Demóstenes abriu aspas para Humberto: “A apreciação realizada pelo Conselho de Ética não se confunde com os julgamentos do Poder Judiciário, que são julgamentos presos a rigorosos formalismos procedimentais, inclusive obrigados a buscar provas materiais irrefutáveis. Tal não se aplica ao processo disciplinar de falta de decoro parlamentar.”

Na pele de neo-Renan, o ex-Demóstenes indignou-se: “Isso está lá desse jeito, anunciando que um senador pode perder o mandato ao arrepio do procedimento formal e independentemente de se buscar prova.” Queixou-se: “[…] A representação, que deveria ser um documento à altura do mandato que ela quer cassar, foi transformada apenas numa folha de papel com ‘fatos deduzíveis’.”

Por uma dessas ironias que só a história, seletiva Senhora, sabe como levar ao corredor frio da posteridade, o ex-Demóstenes soou como o seu alvo de quatro anos e sete meses atrás. Também Renan, no julgamento de 2007, investira contra o relatório do senador Jefferson Peres, o relator da época. Reclamara de um texto que encomendava o seu escalpo invocando os “indícios de culpa.”

Implacável, Demóstenes dera de ombros para os procedimentos formais que poderiam produzir as provas: “Não me venham com a história de que meros indícios ou de que apenas indícios não são suficientes para ensejar uma condenação. São sim! O Código de Processo Penal tem um capítulo – “Dos Indícios” –, com um artigo, que dispõe claramente a respeito do tema. E os indícios levantados pelo senador Jefferson Péres são mais que suficientes para provar que o senador Renan Calheiros quebrou o decoro parlamentar.”

Em memorial distribuído na véspera do julgamento desta quarta, os advogados do ex-Demóstenes anotaram que “pesa” sobre os ombros dos juízes do Senado “uma dura cobrança de uma sociedade que está absolutamente vendada pelos mesmos interesses e atitudes” que “sangram” o acusado. A defesa conclamou os algozes a dar as costas para a imprensa e a opinião pública. Rogou para que resistam “a essa cobrança toda, a essa desmedida e criminosa pressão que não cessa…”

Tomado pelas palavras de 2007, Demóstenes daria uma banana para os defensores do ex-Demóstenes. Vale a pena ouvir o verdugo de Renam: “Nós, senadores, temos de salvar o nosso mandato. Temos de melhorar a imagem do Parlamento. Temos de votar de acordo com as nossas consciências. Temos de ser homens de bem. Temos de pensar que aí fora existe toda uma sociedade à espera do que vai acontecer. Esse resultado aqui não afeta só o nosso dia-a-dia, afeta a história de cada um de nós.”

Em discurso de seis dias atrás, um ex-Demóstenes sem história incomodara-se com uma frase extraída do relatório de Humberto Costa, o seu Jefferson Peres. Reproduziu-a: “O que está em debate não é a imagem do parlamentar, individualmente considerada, mas a do Parlamento.” Depois, interpretou-a:

“Significa que, se o meu pescoço não servir de abrigo à espada da mídia, ela vai se voltar contra esta Casa. Para efeito de comparação, seria certo a polícia tirar um suspeito de dentro da delegacia e entregar para a multidão que grita pelo linchamento. Não importa se a vítima é culpada ou inocente, se seria ou não absolvida pela Justiça. Se depois for descoberto que ela estava correta, será tarde, pois a sede de sangue tem de abastecer a enxurrada.”

O Demóstenes de 2007 preferia associar-se à “espada da mídia” para evitar que a lâmina se voltasse contra “esta Casa”. Emparedava os colegas, crivando-os de interrogações: “Qual é o Senado que nós queremos, senhoras e senhores senadores? É o Senado de Nabuco de Araújo? É o Senado de Rui? O Senado de Tancredo? O Senado de Juscelino? De Afonso Arinos? Ou queremos o Senado da patranha, o Senado da vergonha. […] A opinião pública vai nos cobrar se daqui sair mais uma decisão injusta, se daqui não apontarmos nós o caminho para a redenção do Senado.”

No miolo do seu memorial, como que preocupados com a possibilidade de a língua ferina de Demóstenes influir no julgamento, os advogados do ex-Demóstenes anotaram: “A defesa bem sabe que talvez o senador esteja aqui sendo julgado também, e sobretudo, por ser rigoroso, por ter sido agressivo nas palavras, por ter sido duro nas cobranças cotidianas. Mas se estes atos do passado o afastam dos seus pares, por eventual falta de cordialidade, certamente não representam potencial para justificar sua cassação.”

Vacinado contra apelos emocionais, Demóstenes faria ouvidos moucos para a equipe de defesa. Na célebre sessão de 2007, o antecessor do ex-Demóstenes comparara o acusado de então com o colega que presidia o julgamento na época e consigo mesmo:

“O senador Renan Calheiros é muito mais simpático do que o senador Tião Viana, muito mais simpático do que eu. Todavia, infelizmente, o concurso não é de miss, o concurso não é de mister, não conta simpatia neste caso. Conta, sim, a atitude que um homem tem à frente da Casa, no comando da Casa, ou sentado aqui, como senador da República.”

Para o Demóstenes de outrora o apelo à “cordialidade” insuado no texto dos advogados do ex-Demóstenes de agora era matéria prima negligenciável: “Os Senadores não devem votar só com seu coração, por maior que seja o sentimento de amizade pelo senador Renan Calheiros, por maior que seja a simpatia que ele inspirou quando presidente, e foi um presidente que atendeu a todos. Ele quebrou o decoro parlamentar. Essa é a situação que tem de ser considerada.”

Hoje, o ex-Demóstenes e sua defesa agarram-se ao voto secreto na expectativa de que do escurinho brote a surpresa de uma absolvição. Ontem, Demóstenes criticava o “papel feio que faz um senador que vem aqui, discursa de uma forma, vota de um jeito e sai dizendo que votou de outro.”

Indavava: “O que há por trás disso?” Açulava: “Assumam as posições!” Inquiria: “Que mal há nisso?” E lecionava: “É melhor o senador Renan Calheiros saber identificar quem foi que votou contra ele ou quem votou a favor dele do que o ato de dissimulação. Isto é o pior que pode haver para o Parlamento do Brasil, é o pior que pode haver para a configuração de um Senado altaneiro.”

Um momento crucial das biografias é o encontro do homem com seu erro. Demóstenes avistou-se com o erro no instante em que aproximou sua biografia à folha corrida do contraventor Carlinhos Cachoeira. Se a atuação de Demóstenes no Senado ensinou alguma coisa, é a não esperar qualquer tipo de intenção altruísta de personagens como Cachoeira. Quando se achegam a pessoas influentes, não buscam amizade, mas o intercâmbio de favores que lhes facilitem a sobrevivência.

Ao misturar-se com Cachoeira, Demóstenes tropeçou no erro. Sendo quem era, deveria ter olhado para o erro e proferido a sentença: “Ali está o erro”. Preferiu passar adiante, sem desconfiar de que o erro era o erro. Resultado: mergulhou de cabeça nas conversas vadias do Nextel. Encharcado, tornou-se o irreconhecível e indefensável ex-Demóstenes dos dias que correm.

Se não tivesse morrido, Demóstenes cassaria o mandato do colega ex-Demóstenes sem titubeios. Repetiria da tribuna, neste 11 de julho de 2012, a performance daquele 5 de dezembro de 2007. A plenos pulmões, voltaria a indagar:

“Qual é o Senado que nós queremos, senhoras e senhores senadores? É o Senado de Nabuco de Araújo? É o Senado de Rui? O Senado de Tancredo? O Senado de Juscelino? De Afonso Arinos? Ou queremos o Senado da patranha, o Senado da vergonha? Queremos o Senado do Demóstenes ou o Senado do ex-Demóstenes?” Em 2007, a despeito da verve de Demóstenes, os senadores optaram pelo Senado de Renan. Em 2012…

1 Comentário

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 201.86.177.19 - Responder

    A injustiça pode demorar um dia um ano ou até seculo mas para o bem geral da nação ela aparece e como no caso Demostenes só demorou umdecenio. Que bom.

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

1 + 14 =