ADEMAR ADAMS: Refletindo sobre a situação política e econômica do Brasil, chega-se à conclusão que apesar de estarmos no século 21, ainda somos uma reles republiqueta latino-americana. Se vai haver impeachment ou não, ninguém sabe, mas a nossa cara de republiqueta está estampada pra todo lado

Lula e Dilma, presidentes eleitos  pelo PT, e Fernando Henrique Cardoso, presidente eleito pelo PSDB. A comparação entre os dois períodos de governo - o tucano e o petista - está sempre no centro do debate nacional

Lula e Dilma, presidentes eleitos pelo PT, e Fernando Henrique Cardoso, presidente eleito pelo PSDB. A comparação entre os dois períodos de governo – o tucano e o petista – está sempre no centro do debate nacional

Quando vamos deixar de ser uma republiqueta?
por Ademar Adams

Refletindo sobre a situação política e econômica do Brasil, chega-se à conclusão que apesar de estarmos no século 21, ainda somos uma reles republiqueta latino-americana.

Mas antes de analisar o momento atual, vamos relembrar rapidamente os governos anteriores.

No final do século vinte o presidente Collor, que fazia um governo fraco e sem rumo, foi impedido de continuar governando pelo Congresso Nacional. Usou-se uma onda de denúncias de corrupção, por costumeiros pecadinhos que ao maioria dos políticos deste pais, em todos os níveis, sempre faziam e continuam a fazer hoje.

A fora a vontade da Rede Globo de se descartar do aliado rebelde, não houve quartelada, tiro no peito e nem pedido de exílio. Só um processo de impeachment, dentro da ordem constitucional. O então presidente assinou a intimação, e saiu, aparentemente sóbrio, de mãos dadas com a esposa.

Todo mundo passou a achar que entrávamos na modernidade institucional. Seríamos então uma verdadeira democracia, um país moderno, pronto para entrar no futuro glorioso.

Veio o interregno de Itamar Franco. Simplório e birrento, o mineiro de Juiz de Fora foi meio desprezado por todos. O PT negou apoio, o PFL idem e ACM dizia cobras e lagartos do governo. O PMDB ainda meio sangrado pelos tempos de Sarney, ficou trocando orelha. A Veja chamou de pífio o ministério dele.

Quando FHC, que queria ser o chanceler do Collor, se tornou ministro da Fazenda de Itamar, sem ter noção do que seria isso, ria o tempo todo. Nem Itamar sabia que o sociólogo lhe fora soprado para ser um mero gerente do projeto neoliberal na linha do que tinha sido traçado pelo chamado Consenso de Washington.

Na onda do fim da inflação e da estabilidade da nova moeda do plano real, FHC foi eleito presidente e cumpriu a cartilha do comando do capital internacional. Vendeu as estatais na bacia das almas, grande parte financiada pelo BNDES. Um enorme patrimônio do povo brasileiro virou fumaça. Entregamos o aço, as comunicações e a energia elétrica. Três ramos estratégicos foram para as mãos dos estrangeiros.

Quando os bancos privados, por incompetência, sentiram o baque da redução da inflação, FHC virou papai-noel e doou-lhes mais de 30 bilhões de reais com a desculpa de salvar o sistema financeiro nacional. E hoje poucos se lembram do Proer…

O professor saiu do governo por baixo. A submissão ao modelo do capital, comprovou que seu brilho de intelectual era falso. O sociólogo mostrou que era um marxista camaleão, pois fez um governo liberal, aliado dos políticos mais retrógrados do país. Ou seja, simples chefe de governo de uma república das bananas.
Então foi eleito o metalúrgico. Mas Lula, para ganhar a eleição também mostrou seu lado camaleão, transformando seu partido numa geleia socialdemocrata.

Vamos recordar que Luiz Inácio mal tinha sido eleito e já viajou para um encontro com Jorge Bush na Casa Branca. Ou seja, foi pedir benção àquele biltre e veio de lá com o presidente do Banco Central que lhe foi o ordenado, um tucano com fortes ligações com a banca internacional.

No começo do seu governo houve muita boa vontade de todo lado. A direita do capital e os reacionários da política e da sociedade estavam pagando pra ver. Parece que queriam deixar o PT governar para provar que não tinham competência pra isso.
Mas quando os resultados positivos começaram a aparecer foi preciso colocar o aparato de vigilância da reação. Veio a história do “mensalão” em 2005 e a certeza de que Lula não seria reeleito por isso.

O caso semelhante no governo FHC, a compra de deputados para a reeleição, foi na linha do “mensalão”, com deputados confessando que receberam dinheiro para aprovar mais quatro anos para FHC. Mas não deu em nada, o Ministério Público era comandado pelo engavetador e a imprensa amava o chefe tucano.
A campanha contra Lula deu com os burros na água apesar de toda a fofoca do “mensalão”. O metalúrgico não só foi reeleito, como escolheu sozinho quem lhe sucederia. Mesmo com toda a dita elite e a mídia contra.

Mas a reeleição da Dilma não foi engolida pela camada privilegiada e nem pelos barões da imprensa, que passaram a ter também o engajamento da pequena burguesia. Esta reage contra a concorrência com os pobres que mudaram de patamar e passaram a ocupar os aeroportos e os restaurantes. Reclamam ainda que não tem mais doméstica e nem jardineiro querendo trabalhar, porque recebem bolsa família.

Já antes da posse quiseram impedir a presidente Dilma de assumir. Assumiu, não a deixam governar e querem o impeachment de todo jeito. A grande imprensa propala todos os dias números negativos na economia para assustar o povo. Os políticos fisiológicos, os parlamentares organizados em bandos (bancada da bala, dos evangélicos, do agronegócio, etc.) fazem todas as trapaças possíveis para impedir o governo de agir.

Sinais de republiqueta

Quanto pior melhor! Esse é o sinal. O país e o povo que se danem! O que importa é derrotar o governo. O play boy da alterosas e o Farol de Alexandria não querem esperar 2018. Tem de ser agora, pois em três anos muita coisa pode mudar e até a Dilma se recuperar e (“Deus nos livre!”) fazer o sucessor.

A republiqueta aflora no velho jeito de ser cachorrinho amestrado sacudindo o rabo pro dono. “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil.” E os emergentes, que adoram viajar para Nova Iorque e Miami, alienados e politicamente analfabetos, não percebem que o que está em jogo é a necessidade de expansão do capital sobre o que ainda não está sob seu domínio.

Esquecem também que a América do Sul está tentando deixar de ser quintal e a prova disso são os diversos governos de esquerda que o povo vem elegendo nos últimos anos. E aí, para os analfabetos políticos, esse governos de esquerda são comunistas, querem uma nova união soviética. A mesma cantilena de 50 anos atrás.
O caso da Petrobras, onde a roubalheira descoberta agora começou muito antes do PT assumir (e continuou, é claro), vem sendo investigada e punidos corruptos e corruptores. Mas o que se nota é que a mídia e os liberais (Serra à frente) querem quebrar a empresa que sempre foi um orgulho dos brasileiros.

Exemplos que o Brasil não segue

1 . EUA – Vamos relembrar o ano 2000 em que Jorge Bush ganhou a eleição de Al Gore graças às fraudes ocorridas na Flórida, estado governado pelo seu irmão.

O que fizeram Al Gore e o Partido Democrata, mesmo tendo tido mais votos nominais, após a Suprema Corte bater o martelo conservador em favor de Bush? Se recolheram e deixaram o adversário governar.

Se tivessem chamado o povo às ruas e denunciado a fraude que havia ocorrido, poderiam criar uma grande instabilidade e acabar com os bons frutos do governo Clinton na economia. Mas não. É que lá eles pensam primeiro no país e nos interesses do povo. É a lógica para seguir em frente. Não é à toa que são uma potência.

2 . Alemanha – Em 2002 nas eleições na Alemanha houve um grande problema com um empate técnico entre os conservadores liderados pela CDU e a centro esquerda coligada em torno do Partido Social Democrata.

Foram rodadas e rodadas de negociações e nem um dos lados formava uma maioria que assegurasse a escolha do Primeiro Ministro, que é quem governa no sistema parlamentarista.

Ante o impasse, o PSD que tinha uma coligação levemente mais fraca, abriu mão e deixou Ângela Merkel assumir e governar. O partido derrotado foi para a oposição, mas fazendo o papel de uma oposição moderna, preocupada com a sua nação.

Merkel não é uma governante da minha simpatia, divirjo ideologicamente dela, mas não tem como não reconhecer a força de sua liderança, a firmeza de sua ação nessa hora crítica pela qual passa a Europa.

3. França – Na eleição da França em 2002, Lionel Jospin do Partido Socialista foi muito mal e sequer chegou ao segundo turno. Passaram Jacques Chirac do Partido Conservador e Le Pen da extrema direita. O Partido Socialista nem titubeou ante a ameaça de uma vitória de Le Pen, que seria um retrocesso estrondoso, declarou imediatamente apoio a Chirac, que se elegeu com mais de 80% dos votos.

E na republiqueta Brasil …

O PSDB perdeu a eleição por cerca de três milhões de votos mas o seu candidato e seus dirigentes não aceitaram a derrota. Para eles, que no segundo turno tinham toda a grande imprensa, não só apoiando, mas trapaceando (exemplo: a capa da Veja na véspera de eleição, com uma denúncia que nunca foi comprovada), consideravam que já tinham ganhado.

Quando a maioria do povo disse não à volta da proposta neoliberal, os tucanos e seus seguidores passaram a querer um terceiro turno. Quiseram anular a eleição, impedir a posse, impeachment, golpe militar, qualquer coisa, menos deixar Dilma governar.

A crise econômica não era tão intensa, mas a crise política foi aprofundando as dificuldade na economia e o governo foi perdendo força. Dilma também contribuiu para isso, apoiando a fracassada candidatura de um petista para a presidência da Câmara.

Se vai haver impeachment ou não, ninguém sabe, mas a nossa cara de republiqueta está estampada pra todo lado.

ademar adams

Ademar Adams é jornalista em Cuiabá-MT

11 Comentários

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  1. - IP 201.22.173.112 - Responder

    Há uma grande diferença,oportunamente oculta pelo nobre e adesista jornalista.Nos casos dos USA,Alemanha e França,nenhum candidato vencedor praticou o estelionato eleitoral concretizado pela “mentirosa” Dilma.Está tudo gravado e documentado ,é só olhar no Google,You Tube,etc.Em segundo lugar,não houve acusações contra qualquer dos vencedores candidatos desses países de terem recebidos,diretamente ou através dos Partidos aos quais pertenciam nenhum dinheiro de empreiteiras que comprovadamente DESVIARAM dinheiro público ,com auxílio de agentes públicos ,nomeados pela própria candidata.Agora vce está certo,somos uma republiqueta de bananas,pois se fossemos qualquer pais do dito primeiro mundo,o presidente pediria desculpas e RENUNCIARIA,e depois, responderia pelos malfeitos que comprovadamente aqui ocorreram.Mas a Dilma é a mais legítima representante desse poveco da republiqueta latino americana,tanto é,que ela preferiu não ir a reunião dos países do G20 para prestigiar a posse do cocaleiro Evo Morales,quando, poderia perfeitamente mandar o Temer.Porém tranqueira anda com tranqueira.

  2. - IP 200.175.151.254 - Responder

    Quase que o Ademar me convence de que o PT não roubou e não tem dois tesoureiros presos por ações em nome de um projeto de poder!!!

  3. - IP 177.5.122.166 - Responder

    Seremos uma republica melhor Ademar ; quando houver um político de saco roxo para promover mudanças estruturais em nossa base politico/administrativa/eleitoral.
    Quando acabarmos com a coligação de partidos em época eleitoral ; um defeito grave de nossa democracia e que torna refém de malacos como c ollor , qualquer governo que ocupe o planalto.
    Quando acabarmos com a cultura de troca troca de partidos que é uma praga em nossa nação.
    Mas a verdade é que nosso país é formado por um povo que diz o tempo todo desprezar o governo , mas quer o tempo todo que o governo esteja mais presente em sua vida , pajeando-o e tutelando o cidadão como se ele fosse um completo imbecil.
    Veja o caso do movimento passe livre ; eles querem transporte público de graça . Imagine ; PAGO o transporte publico é uma droga , oque faz alguém pensar que gratuito ele seria diferente da saúde , educação e segurança pública? Seria apenas mais uma coisa para ser odiada e desprezada pela população .
    A verdade caro Ademar ; é que o povo brasileiro é escravo das coisas “dadas ” pelo governo , e vive de ilusões bienais , onde sempre espera que o governa vá resolver problemas que não são problemas , mas sim causas de suas escolhas. Veja o caso do ENEN . Esse governo que aí esta a doze anos , agora não entende mais como erro um aluno escrever palavras erradas , se ” estiver dentro do contexto e estrutura de ideias” ; ou seja nivelou por baixo e estará criando uma legião de analfabetos diplomados apenas para apresentar números . Experimente procurar um funcionário com nível médio e com idade de 20 anos para você ver oque encontra em termos de formação profissional.
    Oque faz uma republica de bananas ; não é o governo , é seu POVO.
    A conversa é longa…………

  4. - IP 187.17.52.174 - Responder

    Agradeço ao meus leitores cativos.
    Claro que li só o texto do Ruas, que procura fazer um diálogo civilizado.

    Os outros dois, anônimos, nem lhes leio, mas serei ingrato, já que eles não perdem nenhum artigo meu?

    • - IP 201.22.173.112 - Responder

      Eu Ademar so leio os seus posts para ter o prazer de contesta-lo.Tarefa que cumpro como um dever civico.

  5. - IP 201.22.173.112 - Responder

    Ja te falaram que voce e cara do Valdir Teiss do TCE?

    • - IP 187.17.52.174 - Responder

      Osmirna:
      Mi cago em la leche de su madre!

    • - IP 189.72.223.42 - Responder

      Osmir está revelando um viés… esquisito, no mínimo…

  6. - IP 201.71.158.130 - Responder

    De onde saiu esse sr. Ruas? Colocar a culpa no povo pelas besteiras que os maiorais da republica fazem? É coisa de quem não tem argumento sério. O povo, na verdade, é uma ficção, não existe como massa unificada, é cada um pensando pro seu lado, e muitos pensando tolices como esse Ruas

  7. - IP 191.223.8.57 - Responder

    Márcio , aparentemente a” boidada” a que me refiro como “povo” , aumenta muito e tem excelentes representantes como , por exemplo, você que comenta chamando quem não lhe dirigiu a palavra de tolo.
    O povo é sim o responsável por tudo isso que está aí , pois prefere ver novelas e o “framengo” do que ler um livro ou assistir um noticiário de credibilidade. Esse povo que hoje vota em quem lhes promete não cortar o bolsa alguma coisa não sabe votar ; não sabe porque os estados tem 3 senadores ; não sabe porque existem câmara e senado e acreditou numa esparrela como a redução na conta de energia às vésperas da eleição ; um truque que de tão medíocre , deve ser pratica comum apenas nas ditaduras centro africanas e em países que carregam o mantra dos bolivarianos.
    Em resumo meu caro , eu sou um brasileiro de direita sim ; sempre fui , e acho que o pais já perdeu muito com esse engodo ” dos trabalhadores” ; onde os bancos lucram fábulas e os amigos do rei e da rainha se refestelam nos nossos suados impostos . Sou contra o voto para semi alfabetizados e os ” dimenó” ; sou contra a participação excessiva do estado na vida do cidadão e defendo um estado mínimo , e com menos impostos.
    Eu tenho um lado meu caro e com certeza é contra você.

  8. - IP 187.183.128.71 - Responder

    Esse senhor Ruas parece mesmo um suje9io de miolo mole. Escreve um comentário em um blogue muito acessado pelas mais diversas camadas e depois diz que não está falando comigo. Insiste na tese do povo como um grupo unido com um só pensamento que seria sempre uma bobagem. O sr Ruas tem medo de aceitar essa liberdade humana que faz cada um desses 200 milhões de brasileiros ter a sua historia e a sua bobagem, como ele tem lá a dele. Coitado de quem convive com o sujeito. Achando que todo mundo é idiota e só ele tá marchando certinho…

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