Therezinha Arruda, tia do Dante, volta de Cuba e lança livro

E1A - TEREZINHA ARRUDAA volta de Therezinha Arruda

Tia de Dante de Oliveira retorna de Cuba e lança livro em que faz defesa dos povos e culturas autóctones

Therezinha Arruda, professora e ex-freira, uma mulher que não sabe trabalhar sozinha

JOÃO BOSQUO
Do DC Ilustrado – DIÁRIO DE CUIABÁ, fotos Lorival Fernandes

O livro “América e os Guardiões das Culturas Autóctones” que vai ser lançado nesta quinta-feira, 28, no Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros é resultado de um tudo – podemos assim dizer – desse amor de Therezinha Arruda pelas coisas da terra cuiabana, pela pesquisa e do gostar de ser professora, como também dos artigos – inúmeros artigos – escritos para as revistas universitárias.

Therezinha Arruda nos conta que, apesar de escrever, nunca imaginou escrever um livro, mesmo porque já existem tantos livros. “Tanto é verdade que este livro não tem nada de novo”, afirma.

O projeto do livro começou meio que por acaso. Certa feita, Lucia Palma, “grande atriz, batalhadora da cultura e amiga maravilhosa”, convidou Therezinha para fazer uma palestra voltada para professores. “O que falar?” era a dúvida e nessa busca achou aquilo que seria interessante: “Falar dos contadores de histórias das tribos indígenas, dos povos naturais. Porque esses povos estão totalmente integrados com a natureza e como eles nos ensinam: a Terra não nos pertence, nós é que pertencemos à terra”.

Voltei e disse para Lucia Palma: “Vou falar dos Guardiões das Culturas Autóctones e comecei a pesquisar sobre o assunto”. Aqui começa a participação fundamental do ‘sustentáculo’ que foi o marido, Andrez Floriti, desde que se conheceram em Cuba. Ele ajudou a montar a palestra na parte de multimídia. Passada a palestra, Andrez volta e meia volta a incentivar Therezinha a desenvolver o tema. A morte inesperada do marido, em outubro de 2011, deixou Therezinha meio que sem norte.

Esse norte ela vai recuperar com a amiga Rosa Leal, carinhosamente chamada de Rossita, por meio de conversas de fundo espiritual e ajudar no diálogo para construção do livro. Therezinha avisa que precisa desse diálogo para poder trocar ideias, conversar, pois não consegue trabalhar sozinha.

Depois da morte de Andrez, ela fica dois anos em Cuba, enquanto montava a biblioteca de pesquisa, e começou a feitura do livro, que veio terminar em 2014.

Therezinha afirma que o principal ponto da obra é a “defesa do direito que os povos originários da América tem sobre a terra e defesa também da preservação das línguas autóctones”. Sobre essa questão da linguagem, Therezinha comenta um dado importante já levantado que a cada duas semanas uma língua originária é extinta no mundo.

 

E1A - CAPA DE LIVRO

Ela faz questão de destacar esse ponto em nossa conversa, por uma questão simples: o poder da palavra. A professora Therezinha, apesar da voz fraquinha, é uma adepta convicta da verbalização. Ela lembra que cobrava isso de seus alunos, quando do trabalho em grupo. Alguns, durante a apresentação, ficavam ‘mudos’ se escorando nos outros e ela dizia. “Olha, vocês tem que falar, pois é falando que você aprende. A gente não assimila nada em profundidade sem falar. No momento que a gente fala é que aprofunda o conhecimento”, analisa. E sobre essa questão da fala ela também faz um capítulo sobre o assunto, no livro.

A edição está sendo praticamente custeada pela autora. Essa decisão deve-se a uma questão de tempo. Therezinha Arruda até chegou a levar o livro para a Editora Universitária da UFMT, mas teria que concorrer com uma infinidade de outras obras e não teria garantia de edição ainda nesta década. Parte da edição já está quitada, com recursos próprios e patrocínio da Domani. Foi contemplada com outros R$ 10 mil do fundo de incentivo a cultura, na gestão passada, mas o dinheiro não foi liberado até agora. Existe a expectativa que seja logo.

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E1A - TEREZINHA ARRUDA OPÇÃO
PERSONALIDADE 

Uma mulher em defesa da cultura popular

Therezinha Arruda conta que foi de Poconé, porta do Pantanal, até Cuba sempre guiada pelo amor

JOÃO BOSQUO
Da Reportagem

Véspera de completar 85 anos, a professora Therezinha de Jesus Arruda lança o seu primeiro livro “América e os Guardiões das Culturas Autóctones”, nesta quinta-feira, 28 de maio, no foyer do Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros – anexo à Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

A mãe de Therezinha, Francisca de Jesus Figueiredo de Arruda Martins, conhecida e chamada por todos por professora Chiquinha, foi educadora de muitas e muitas gerações de poconeanos. Professora do Grupo Escolar General Caetano da Albuquerque, era quem organizava as festas na década de 40, com entusiasmo.

Alfabetizada em português e francês, Chiquinha se formou professora na primeira turma de normalistas da Escola Modelo de Mato Grosso. Casa-se com o também poconeano Luiz de Arruda Martins, líder político local da UDN. Nessas festas, organizadas pela mãe, com oito, nove anos, Therezinha participa da encenação de uma peça teatral de Chiquinha Gonzaga. A foto perdida ao lado da amiga, Jábica, irmã de Beísa Biancardini, conta um pouco dessa história, quando já se inseria na atividade cultural.

Therezinha Arruda completa o primário em Poconé, faz o preparatório para o exame de admissão, com o Dr. Lobo, o juiz de Poconé, e muda-se para a casa de familiares em Cuiabá, para fazer o ginásio, no Liceu Cuiabano, hoje conhecido também como EE Liceu Cuiabano Professora Maria Muller. Uma das casas era da irmã mais velha, já casada, e de parentes, como o da professora Guilhermina de Figueiredo, irmã do filólogo Cesário Neto e do professor Benedito Figueiredo, outro expoente da nossa língua mãe.

No ginásio veio a ser aluna das professoras Maria Dimpina, geografia, e Tereza Lobo, irmã do juiz de Poconé, de português. Tereza Lobo fora colega da mãe, Chiquinha, e dizia para a aluna: “Não admito que a filha de Chiquinha tenha nota menor que dez”. Imagina como que a jovem não ficava nos dias de provas, com a severa Tereza Lobo de olho nela.

Nessa estada em Cuiabá, estudando no Colégio das Freiras e indo às missas aos domingos, na Capela Santa Rita, que ficava mais próxima de casa, principalmente porque as missas eram celebradas por Dom Camilo Faresin, padre italiano. Segundo Therezinha, esse padre tinha uma maneira especial de fazer o sermão, de maneira profunda, mas também bastante próxima da figura do Cristo. “Do Cristo, ser humano, vivo e passava isso. E eu me apaixonei pela figura de Cristo e tomei a decisão de ser freira”. Entre 19 e 20 anos muda-se para Campo Grande para estudar no Seminário Salesiano.

Com o hábito de freira, da Congregação Filhas de Maria Auxiliadora, as Salesianas, fundada por S. João Bosco, foi caminhar no mundo, como professora. Primeiro em Lins (SP), Tupã (SP) e um dia cismou de cursar História. Pedido feito às irmãs superiores, pedido atendido, mas não foi aliviada das funções. Continuou dando aulas para o ensino médio e dando assistência a algumas internas, conforme o regulamento. Se forma professora de História e Geografia (que naqueles tempos ainda era assim).

Detalhe: no dia da formatura, uma galera, colegas da freira, fazem uma festa. A única a ser ovacionada, que causou certo espanto no ambiente até então austero. Era 1963, véspera do Golpe Militar que iria tirar o presidente constitucional do Brasil, João Goulart, o Jango, e implantar uma das ditaduras mais violentas da América Latina. Therezinha Arruda apoiava a Juventude Universitária Católica, na sala de aula tinha a fama de rebelde. Numa aula de sociologia, o professor entra, escreve no quadro negro “reforma agrária” e caminha pela sala a explanar. A colega corre e escreve “revolução agrária”, o professor ao ver aquilo acusava Therezinha que sentava na primeira filha: “É a freira… Vou denunciar a senhora pra Dom Evaristo”, o então arcebispo de São Paulo.

Terminado o curso, formada em História, em 1964, é mandada para Campo Grande e, na futura capital de Mato Grosso do Sul, vem a ser professora de Aline Figueiredo. No ano seguinte, volta para Lins, porque precisavam de uma professora de etnografia. Em 1967, é transferida para Lorena, para lecionar na Faculdade de Filosofia. No início das aulas recebe um telefonema da diretora da faculdade de Lins, que pede para conversar com o presidente do Diretório Acadêmico que ameaçava fazer greve para ter Therezinha de volta como professora. No ano seguinte retorna a Lins e fica até o ano de 1970, quando vem para Cuiabá para o Colégio Coração de Jesus.

Quando ela chega, por esse período, acontecia a fundação da Universidade Federal de Mato Grosso e é convidada para trabalhar na nova instituição. Enquanto isso procura Marília Beatriz de Figueiredo Leite (o Figueiredo de Marília é o mesmo de Francisca de Jesus, mãe de Therezinha) de quem teve notícia que trabalhara com Dom Helder Câmara, com grupo de favelados. Com ela funda o GTUM – Grupo de Teatro Um.

Como era de colégio de freiras, as peças, geralmente, não tinham atores, portanto, personagens do gênero masculino. As personagens ou eram viúvas, solteiras e as casadas os maridos viviam viajando. Para acabar com isso, as duas vão a São Paulo e participam de um encontro de teatro. Após, no retorno começa a trabalhar a questão técnica, impostação de voz, corpo etc. durante todo o ano e no seguinte, montaram o texto “O Homem, a Palavra e o Objeto”, de Afonso Romano de Santana.

Enquanto corria a discussão sobre adoção de salas mistas. Só para lembrar, o Salesiano São Gonçalo era só de meninos e o Coração de Jesus só de meninas. O Colegio dos Padres foi o primeiro a adotar a turma mista, e das freiras demorou um pouquinho mais, mas hoje também é um colégio misto. Therezinha lembra que a vida não é só. A peça, portanto, teve a participação de alguns jovens, como Adérito Pinheiro Duarte e Jorão Oscar e teve não alunas, como a irmã de Marília, Moema que também participou dessa primeira peça. No ano posterior, Therezinha propôs que o GTUM avançasse e produzisse também o texto e assim foi feito. “Poluição, Poluição Galáxia 13”. O tema era a visita de um casal extraterrestre que viera conhecer a vida na terra.

Uns buxixos, alguns colegas freiras começaram a reclamar e numa visita da madre superiora, que pedia, de forma muito educada para “tomar cuidado, pois existiam pessoas de cabeça pequena”. Therezinha avisou: “Não se preocupe, já vou embora” e foi morar com os pais que estavam velhinhos. E o ganha pão passou ser só o salário de professora da UFMT, na qual começa a trabalhar para implantação do departamento de História para a efetivação do curso e fundação do Núcleo de Documentação de História Regional e da Coordenação de Cultura.

Na década de 80, Dante de Oliveira, seu sobrinho, ao se candidatar a prefeito chama Therezinha para trabalhar na campanha coordenando o setor de cultura. Chama Glorinha Albuês, que a apresenta a Liu Arruda, que, na época, tinha uma boate. Este fecha a boate e vai para a campanha do homem das Diretas. Eleito prefeito, Dante reluta em nomear a tia, para evitar nepotismo. A classe artística reage e faz uma eleição pró-forma com Pio Toledo e elege Therezinha que é nomeada diretora do Departamento de Cultura e Turismo (DCT) – Casa da Cultura e passa a conduzir um dos mais efervescentes momentos da recente história cultural de Cuiabá.

O que despontou, sem dúvida, foi na área de teatro, com a formação do Grupo Gambiarra, que teve entre seus integrantes Liu Arruda, Mara Ferraz, Claudete Jaudy, Meire Pedroso, Augusto Prócoro, Vital Siqueira, Wagton Douglas, Maria Tereza Prá Buzignani e Ivan Belém que, recentemente, defendeu sua tese de doutorado, na qual fala justamente desse período. Além disso, foram feitas mostra de músicas regionais, resgate do Rasqueado, apresentação de grupos folclóricos, festa do Cururu, na área da literatura a realização de Feiras de livros, com participação de livreiros de diversos estados, como Minas Gerais, Goiás, além dos estados sulistas. Realização do Programa Poetas Vivos, com edição de 11 edições e 12 poetas no qual foram publicados nomes como Romulo Carvalho Neto, Mário Cezar Leite, Amaury Lobo e Lucinda Nogueira Persona, entre outros; edita o livro “O último horizonte”, de Ricardo Guilherme Dicke, que nesse período estava meio apagado, trazendo-o para mídia. “Fizemos um trabalho grande na Casa da Cultura”, lembra.

Sua fase cubana inicia-se quando vai comemorar os 60 anos, em 1990, e no ano seguinte volta a Ilha de Fidel, para participar de um encontro ibero-americano de filme e vídeo técnico cientifico e intensifica o contato com o Instituto Cubano de Amizade com os Povos. Esse instituto existe por conta do bloqueio econômico americano. “Não gosto que falem, pois não é, embargo, que é uma palavra bonita”.

E nesse encontro Therezinha vem a conhecer Andrez Floriti, ex-militar do Exército Cubano, com quem vem a se casar e a ficar juntos até a sua morte.

1 Comentário

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  1. - Responder

    Uma viagem poética e romântica pela América do Sul
    América do Sol
    América do amor. ..
    faltou a abordagem antropológica. …
    etc. .

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