A nudez castigada de Carolina Dieckmann

Carolina Dieckmann, atriz

A nudez castigada de Carolina
por RUTH DE AQUINO

Uma semana depois de Carolina Dieckmann surgir nua na internet em imagens domésticas, roubadas e compartilhadas febrilmente com textos maldosos, continuo estarrecida com a repercussão neste país tropical, tão sexualizado quanto moralista. É uma enorme hipocrisia.

Não fiquei chocada com as fotos. Elas não são pornográficas ou vulgares. Falta muito para isso. Não há vagina exposta, não há bumbuns escancarados, não há ato sexual, nada constrangedor. Peitos? Nas praias da Europa, mulheres de todos os pesos e idades exibem os seios. Aliás, elas não exibem nada – apenas preferem usar só a parte de baixo da “roupa de banho”, uma calçola para os padrões brasileiros.

Há nu frontal e pelos pubianos de Carolina em pouquíssimas imagens. Ainda assim, pornografia zero. É quase um autoexame de falhas no corpo invejável de uma mulher de 33 anos, mãe de um adolescente. Se existe erotismo ali, é vago. Está na cabeça do voyeur, que se sente, ele mesmo, roubando a intimidade da atriz, assim como o criminoso que a chantageou.

A origem do mundo, obra do pintor Gustavo Courbet

Acima de tudo, não há pretensão nem intenção nos nus clínicos de Carolina. O olhar da atriz para ela mesma é frio em muitas imagens. Carolina era mais erótica na novela das oito, na pele da personagem Teodora, que se vestia, se maquiava e rebolava com a finalidade de despertar desejo.

Fotos caseiras podem, sim, ser pesadamente pornôs. As da atriz parecem um exercício de narcisismo. Seu corpo é lindo, proporcional. Como tantas mulheres saudáveis, famosas ou anônimas, Carolina deve gostar de se ver e de se exibir para o marido. A foto mais sensual, a meu ver, é a que não mostra nada. Com uma calcinha comportada, de perfil, encostada na parede, ela tem os cabelos soltos, o olhar maroto. Bonita como a moça ao lado. São retratos de celular, sem retoques.

Retratos de nus sempre existiram. Feitos por artistas. Quando não havia câmeras fotográficas, eles pintavam as moças peladas, em poses lânguidas ou cruas. Se alguém não conhece a tela a óleo A origem do mundo, de Gustave Courbet, de 1866, dê um Google. Verá um órgão genital feminino peludo, anterior à moda das carequinhas íntimas. O rosto da modelo não aparece, as coxas estão afastadas.
Se existe erotismo, está na cabeça de quem se sente na intimidade da atriz, como o criminoso que a chantageou

Tão realista é a imagem que a tela ficou muito tempo escondida atrás de cortinas ou de outras pinturas, vista apenas por particulares. O Museu d’Orsay, em Paris, comprou a obra em 1995. O mesmo museu expõe agora, até 30 de junho, os nus explícitos de Degas – em pintura, desenho e escultura.

O que as fotos toscas de Carolina têm a ver com obras-primas? A reação exagerada, que fazia sentido em outros séculos. Hoje, artistas contemporâneos e vanguardistas usam celulares para expor fotos domésticas e banais. A britânica Tracey Emin se fotografou nua e expôs na Hayward’s Gallery, em Londres, uma série de imagens. Algumas na banheira, como Carolina.

Um flagrante histórico é a foto de Simone de Beauvoir nua, de costas, feita por um amigo, pela porta entreaberta do banheiro. O traseiro da musa existencialista foi visto pelo mundo inteiro. E ninguém achou que a companheira de Sartre tinha sido ingênua e imprudente. Só libertária.

Se você pesquisar essas imagens, proteja-se do moralismo burro cibernético. O Facebook puniu com três dias de suspensão um fotógrafo carioca que postou Simone de Beauvoir nua. O Facebook também desativou o perfil de um artista norueguês que expôs a tela de Courbet, A origem do mundo. Tudo virou pornografia. Regredimos em relação a um tempo em que a nudez era revolucionária?

Com Carolina, o problema foi a invasão. Ela sempre se recusou a posar nua para revistas. Sua privacidade foi arrombada. O mesmo aconteceu com a atriz Scarlett Johansson. O hacker de Scarlett foi encontrado e preso. Uma pessoa pública precisa pagar o preço pela “imprudência” de manter fotos íntimas num computador? Não creio. Quando a violação eletrônica for punida com ajuda de tecnologia e legislação, poderemos parar de culpar a vítima. E parar de estimular a paranoia doentia com tudo e todos. Espero que essa história termine com um castigo exemplar, não à nudez, mas ao violador.

Meu maior incômodo hoje não é o que o outro pode fazer com você. Mas o que as pessoas fazem a si mesmas. As redes sociais e a facilidade de transmitir texto e imagem criaram a antítese do homo sapiens. Há obsessão em “compartilhar”. Compartilhar não só bobagens, mas detalhes cotidianos e familiares que não fazem sentido para mais ninguém.

Como se a amizade dependesse desse striptease virtual. Ou como se disséssemos coisas geniais e essenciais o tempo todo. A realidade não existe antes de ser registrada e enviada a uma multidão de “amigos” e seguidores vorazes. Quem se rende a esse hábito é o verdadeiro exibicionista de nossos tempos.

RUTH DE AQUINO é colunista de ÉPOCA
raquino@edglobo.com.br

Categorias:Direito e Torto

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