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GILNEY VIANA E O PT 2017: “Estamos num tempo de resistência e de defensiva, ainda sem o apoio das multidões de trabalhadores e de pobres”

Gilney Viana, médico e militante do PT

Médico e militante com longa trajetória nas lutas da esquerda, no Brasil, Gilney Viana puxa a lista dos asssinantes da tese “Crítica, Autocrítica e Utopia” que ele e um grupo de militantes petistas escreveram e devem inscrever para o debate que marcará o VI Congresso do PT, quando estará em discussão o processo de renovação das linhas programáticas e da direção do Partido dos Trabalhadores.

Além de propor uma guinada radical visando a retomada da confiança no PT, por parte dos trabalhadores organizados e pela maioria do povo, a tese também faz uma longa autocrítica do comportamento da legenda durante os 13 anos em que ocupou o governo federal, buscando apontar para uma retomada da defesa da construção do socialismo.

Segundo o documento, “está em jogo um Projeto de Nação. O PT, se conseguir se reestruturar para isso, poderá vir a jogar papel importantíssimo, mas não pode ser pensado como “dono” desse projeto. Precisamos aprender a conviver com as demais forças políticas e sociais de um campo democrático-popular e, com elas, construir, em processo, esse projeto comum. Também com essas mesmas forças, precisamos nos entregar a uma luta longa e de fôlego, disputando com outros “Projetos de Nação” que estão sendo construídos por forças antagônicas a um projeto democrático-popular. O processo golpista vem minando profundamente os avanços civilizatórios que se foram consolidando depois do fim da Ditadura e Constituinte de 1988 e, principalmente, após os governos petistas de Lula e Dilma. Valores de solidariedade social e de cidadania estão dando lugar ao renascimento exacerbado da ideologia neoliberal, do crescimento do poder e prestígio da burocracia judicial, dos candidatos da “não-política” (não só o PT foi criminalizado, mas a própria política), junto com a ideologia do ódio à esquerda que apontam para uma escalada repressiva aos movimentos e partidos que a representam.”

Leia, abaixo, uma versão resumida da tese e, no destaque, a tese em sua integralidade.

RESUMO DA TESE ALTERNATIVA: CRÍTICA, AUTOCRÍTICA E UTOPIA

Esta tese alternativa CRÍTICA, AUTOCRÍTICA E UTOPIA, cujo resumo aqui apresentamos, é fruto de conversas de militantes durante as concentrações e caminhadas das manifestações de rua; de cochichos de fundos de sala das reuniões do PT; de debates em colégios, universidades, sindicatos e organizações populares; de rodas de conversas virtuais pelas redes sociais – todas e todos angustiados pelo golpe parlamentar midiático de 2016, mas estimulados pela luta popular contra sua consolidação e pela resistência à retirada dos direitos sociais que ainda há de se manifestar fortemente.

O golpe parlamentar-midiático-judicial de 2016 foi condição necessária para a classe dominante tentar impor em todas as suas dimensões sua saída à crise econômica às custas da maioria do povo.

O governo ilegítimo Temer e a maioria do Congresso são fantoches nas mãos do grande capital. Eles garantiram a cota de pagamento do serviço da dívida pública com a PEC do Teto de Gastos; congelaram as dotações orçamentárias de saúde e educação, as políticas de transferência de renda e garantia de direitos; praticaram e praticam uma política econômica que produz milhões de desempregados e reduz a renda dos trabalhadores. Continuam nesta rota com a reforma da previdência, pretendendo impor cortes profundos no maior programa social da história brasileira.

Para reduzir o valor da força de trabalho e aumentar seus lucros, estão desmontando as leis trabalhistas, ampliando a terceirização, enfraquecendo os sindicatos. E para aumentar seu patrimônio, voltam à onda das privatizações que promoveram na década de 1990, novamente vendas do patrimônio público que mais parecem transferências graciosas de renda do Estado para os ricos. Facilitam o saque ao patrimônio natural com a desregulamentação ambiental, jogando o ônus dos danos para as gerações futuras.

Revelam o seu caráter reacionário quando favorecem a agressão aos direitos humanos, desmerecem a luta libertadora das mulheres, negros e negras, indígenas, LGBT, e de todos e todas que lutam contra as mais variadas formas de opressão e discriminação.

Este conjunto de medidas que retiram direitos do povo no presente e prometem mentirosamente preservar direitos no futuro, se reproduz nos governos e parlamentos estaduais e municipais. Quando o povo protesta nas ruas, trabalhadores e trabalhadoras fazem greves, intelectuais se manifestam e estudantes ocupam escolas e universidades, os golpistas e seus seguidores apelam para a repressão policial.

As políticas sociais e a política externa dos governos comandados pelo PT incomodaram a classe dominante, que conspirou acintosamente contra o governo Dilma, articulou com políticos, mídia monopolista, burocratas e membros do judiciário o golpe, e agora sustenta e se beneficia do novo regime. Esta em síntese é a crítica que desenvolvemos.
Há também a necessária autocrítica. O PT errou gravemente ao acreditar na possibilidade de uma aliança estratégica com parte da burguesia e contar com a tolerância da outra parte para construir um estado de bem estar social no país. Apostou numa ampla aliança com os representantes políticos das elites alojados em partidos conservadores ou falsamente progressistas e democráticos. De repente a classe dominante se unificou, arrastou camadas médias, revelou seu caráter não democrático e apelou para o golpe em 2016 como já o fizera em 1954 e 1964.
O PT cometeu ainda o erro grave de não disputar a hegemonia na sociedade, isto é, de procurar convencer a população da justeza do seu projeto, como se isso pudesse decorrer apenas das suas políticas públicas. Não incentivou, como devia e precisava, o protagonismo independente da classe trabalhadora, dos movimentos das mulheres, negros e negras, indígenas, jovens, idosos e idosas, em luta contra a opressão e discriminação e por seus direitos. Estabeleceu relações com segmentos da burguesia, semelhantes ao praticados pelos partidos da ordem, que deram margens às acusações de corrupção que detonaram sua imagem pública. Não promoveu entre seus militantes a ideologia fundada em valores do socialismo, permitindo que novas camadas de militantes não divisassem para além do reformismo do sistema vigente, e ainda um reformismo moderado. Transformou as eleições na quase única meta da ação militante e da estratégia transformadora.
O longo caminho da autocrítica passa pelo reconhecimento dos erros e pela nova prática política e social priorizando sua inserção na luta social dos trabalhadores e dos segmentos oprimidos e discriminados, respeitando suas autonomias, mas disputando seus corações e mentes. As práticas e as direções precisam ser renovadas para que, levando em conta os erros e os corrigindo, abram-se novas perspectivas para o reencontro do PT com a maioria do povo, com seus ideais originários e sua razão de ser.
Se a luta contra o golpe e o novo regime exige um PT combativo como nos velhos tempos, a luta contra a sociedade capitalista injusta, desigual e degradante ética e ambientalmente, exige um PT militante para os novos tempos, orientando-se no presente dentro da perspectiva futura da utopia da sociedade socialista democrática e sustentável, onde homens e mulheres poderão usufruir dos bens comuns da natureza e dos bens do trabalho humano de acordo com suas necessidades materiais, culturais e espirituais.

Brasília, São Paulo, Salvador, Viana, Recife, Palmas, Campo Grande, 14 de março de 2017.

P.S.: Se você, militante petista, concorda com a linha geral de nossa proposta, contribua com suas sugestões e com sua assinatura, até o dia 23 de março, para que nossa tese alternativa possa ser inscrita nos debates do 6º Congresso do PT.

Assinaturas dos primeiros signatários:
1. Gilney Amorim Viana – Secretário Nacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento do PT – DF
2. Egon Krakhecke – ex-vice governador do estado de Mato Grosso do Sul – Brasília – DF
3.Roberto Vizentin – pesquisador – Brasília – DF
4. Delcio Taques Saldanha – professor do IFMT – Brasília – DF
5. Amariles Helena de Arruda Saldanha – microempresária – Brasília – DF
6. R.T. Neder – professor da UnB 0 Brasília – DF
7. Guidborgongne Carneiro Nunes da Silva – professor – Brasília DF
8. Vicente Almeida – sindicalista – Brasília – DF
9. Eloi Pietá – Ex-prefeito de Guarulhos – SP
10. Antônio Neder – deputado estadual – São Paulo – SP
11. José Machado – Ex-Prefeito de Piracicaba e ex-deputado federal – SP
12. Rosalvo de Oliveira Junior – Engenheiro Agrônomo – Ecossocialista – Salvador
13. João Neto – sócio ambientalista – Viana – ES
14. Antônia Regia Faustino Costa – Enfermeira, sindicalista – Palmas – TO
15. Rossana Faustino Reis – estudante secundarista – Palmas – TO
16. Izaías Pereira da Costa – Médico, Professor Titular da UFMS – Campo Grande – MS

17. Fernando Ferro – Ex-deputado federal – Recife – PE

18. Maurício Laxe – ecossocialista – Recife – PE.

19. Cleber Soares – professor e sindicalista – Brasília – DF.

20. Graça Pacheco – advogada e sindicalista – Brasília – DF

Crítica, Autocrítica e Utopia, Uma Tese Para o 6º Congresso Do PT by Enock Cavalcanti on Scribd

3 Comentários

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  1. - Responder

    É incrível a covardia do Gilney,não fala uma palavra sequer sobre o notável envolvimento do PT no maior caso de corrupção do mundo,o assalto à Petronas. E fica falando de flores.Esquerdista, conivente,e acima de tudo,dissimulado.

  2. - Responder

    Assalto à Petrobras

  3. - Responder

    Segundo o jornalista Paulo Francis já falecido, o assalto à Petrobras teve início com FHC e seu PSDB, mas isso é um detalhe que não convém ser lembrado por aqueles que somente atacam o PT. Osmir não dá um pio – ou seria grunhido? – sobre o envolvimento do PSDB na corrupção endêmica que maltrata o país. Se perguntarem por Aécio – campeão de citações nas delações premiadas -, Alckmin, José Serra, José Aníbal e tantos outros citados em casos de corrupção, Osmir dirá que não sabe quem é o mineiro e seus amigos do PSDB. Osmir é uma piada pronta… mas sem graça.

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