Eduardo Mahon parte rumo a novas aventuras

 

 Eduardo Mahon, que antes pontificava como advogado criminalista, agora é mais citado e lembrado como presidente da Academia Mato-grossense de Letras, onde comandou gestão inovadora


Eduardo Mahon, que antes pontificava como advogado criminalista, agora é mais citado e lembrado como presidente da Academia Mato-grossense de Letras, onde comandou gestão inovadora

 

FIM DE MANDATO

Eduardo Mahon parte rumo a novas aventuras

Advogado e escritor se despede da presidência depois de se destacar como gestor e animador cultural à frente da Academia

JOÃO BOSQUO
DC ILUSTRADO – DIÁRIO DE CUIABÁ

O multifacetado Eduardo Mahon começou a construir sua face de cronista antes de se tornar advogado. Ainda jovem, guri digamos, numa disputa escolar, o jornalzinho da escola recusa a publicar o seu artigo e este DC Ilustrado abre as páginas para a sua primeira publicação ao público leitor. Foi lá, no inicio da década de 90, como nos revelam as efemérides do Almanaque Cuiabá edição que está sendo distribuída este mês de agosto. De lá para cá não parou mais já que o editor gostou do texto e propôs a produção de um texto semanal e assim se torna articulista.
Depois que se formou, em 1999, as pessoas viam o Eduardo Mahon advogado, mesmo porque se tornou um dos criminalistas mais conhecidos da cidade, quiçá do Estado, com artigos jurídicos – treinado que fora nas páginas deste Ilustrado, quando vai colaborar com o semanário Circuito Mato Grosso começa a esbarrar num problema comum aos jornais de hoje queé a questão de espaço. O proposto, quatro a cinco parágrafos, para artigos jurídicos era muito pouco e começou, então, a escrever micro contos que são publicados.
Mahon diz que tinha um ‘feedback’ em relação aos artigos jurídicos, tipo “gostei ou não gostei da posição” enquanto o dos contos era totalmente diferente e esse novo ‘feedback’ o emociona e o inspira a fazer uma compilação e veio o primeiro livro “Nevralgias” (2013). O título é por conta de uma nevralgia que sofria no momento. Acha interessante esse caminho dos micro contos e, logo em seguida, publica o “Dr. Funério e Outros Contos de Morte” (2014), que aborda a temática da morte, que vem a ser como um laboratório para o romance “O Cambista”, lançado este ano. Pronto, a face do escritor contista e romancista está formada.
Antes, porém, a entrada para a Academia Mato-grossense de Letras (AML), dez anos atrás. A decisão de pertencer a AML aconteceu ainda na adolescência quando visitou a Casa Barão de Melgaço e deparou com um quadro no hall de entrada com a figura de alguns acadêmicos. Formado advogado, já militando, quando certo dia depara, nas páginas deste DC, com um edital para preenchimento de uma cadeira na academia. A cadeira que estava sendo aberta tinha sido ocupada por Antônio de Arruda, jurista, ex-desembargador, enfim. Além disso, a AML tinha como membros Luiz Orione Neto, Gilmar Mendes, então advogado geral do Governo FHC, hoje ministro do STF, e Clóvis de Melo, advogado conceituado, ex-juiz federal; até por conta desses nomes, a decisão de disputar estava tomada. “Meu pensamento era iminentemente jurídico”, confessa Mahon.
Ao adentrar naquele universo descobriu que academia era algo mais, formada por historiadores, poetas, cronistas, jornalistas e, sim, juristas. Do convívio com esses acadêmicos, influenciado por esse ambiente de cordialidade, vai se construindo um gosto e quando entra para a academia a também advogada, professora e poeta Marília Beatriz de Figueiredo Leite, Mahon encontra a parceira e correspondente literária, tanto é que os dois escrevem “O Lugar do Desejo”,que deve sair a qualquer momento, e começa a se descolar do lado meramente jurídico e passa a se ver mais literato.
Nem oito anos se passaram completos como acadêmico e Eduardo Mahon é eleito presidente da AML e como presidente dá uma verdadeira guinada na insdtituição, e mesmo quem nunca tinha ouvido falar da Academia Mato-grossense de Letras passou a ouvir falar e, melhor ainda, quem nunca tinha entrado, ou pensado entrar, na Casa Barão de Melgaço, entrou. Tanto isso é verdade, fazendo um rápido comparativo nos últimos 10 anos anteriores à gestão de Mahon foram admintidos oito ou dez acadêmicos e, apenas nos dois últimos anos, sob Mahon,- foram exatos 10 acadêmicos.
Quando o nome de Eduardo Mahon começou a ser cogitado para presidente da ALM, Fernando Tadeu já estava na academia, tanto que o atual secretário, assim como Marília Beatriz, além de contar com apoio de ex-presidentes como Sebastião Carlos Gomes de Carvalho, aceitou a candidatura com a seguinte proposta, feita em uma reunião modesta: primeiro, completar as 10 cadeiras vagas. Aí existia a divergência. Tem acadêmicos que acreditam que o preenchimento deve ser de uma a uma e Mahon diz que discorda desse pensamento e como o estatuto não reza nada a respeito, acredita que a presidência pode abrir todas as cadeiras que estão vagas duma vez.
Segundo ponto: revitalizar a Casa Barão de Melgaço. Segundo ele, a Casa, apesar de seus espaços, não tinha lugar para os acadêmicos se reunirem, sentar com conforto e conversar. Foram comprados mobiliários, nova pintura, intervenção no salão, com novos tablados, reformadas as cadeiras e novo púlpito; e o terceiro ponto da proposta era o de abrir a casa, não como um museu, para visitação pública, mas abrir a casa enquanto espaço, principalmente para a juventude. Essa abertura começa com a comunicação: foram criados o site e as mídias sociais; produzir vídeos, ministrar cursos. Com essas bases, a diretoria foi eleita.
A primeira questão foi a administrativa: como combinado lá atrás, decidiu-se pela eleição conjunta, lembra Mahon, é que uma eleição para cada cadeira demora em torno de quatro meses, 10 seriam quarenta meses ou seja três anos e quatro meses e o mandato são de dois anos. Naquele primeiro momento não encontrou resistência à ideia e assim foi que aconteceu: foram eleitos e empossados Ivens Cuiabano Scaff, Agnaldo Rodrigues da Silva, João Carlos Vicente Ferreira, Lucinda Nogueira Persona, Marta Helena Cocco, Sueli Batista, Cristina Campos, Olga Maria Castrillon Mendes, Flávio José Ferreira e Luciene Carvalho.
Além das posses dos novos acadêmicos, cada um a seu tempo, nos últimos meses, quase que mensal e, no meio disso, dois centenários, o de Rubens de Mendonça, encerrado no dia 27 de julho e o de Gervásio Leite, que encerra-se ano que vem, tendo a frente da AML, na presidência, a sua filha Marília Beatriz.
Nem tudo, porém foi um mar de rosas. Foram dez eleições, dez novos acadêmicos, com algumas surpresas, inclusive, com as eleições de Marta Cocco, Cristina Campos que faziam parte de uma espécie de antiacademia, a Academia dos Mortais. Ivens Cuiabano, num depoimento, reconhece que não queria entrar na academia, mas se rendeu ao chamamento de Fernando Tadeu e Eduardo.
Quatro cadeiras, porém, não foram preenchidas. Os editais foram publicados e nomes dos postulantes inscritos, porém na última hora a eleição foi cancelada. Tudo aconteceu por causa de um artigo publicado no Circuito Mato Grosso no qual se dizia que haveria manipulação de votos. Diante dessa acusação prevaleceu o jurista que processou as pessoas que fizeram tais declarações – e no vai e vem da Justiça aconteceu uma retratação.
Quanto à eleição, Mahon é lacônico e diz que o resultado do processo só quem poderá avaliar é o próprio tempo. O presidente avalia que se contava com candidatos extraordinários e não se sabe que alguns vão se dispor a se inscrever novamente para as próximas disputas de cadeiras.
Para coroar a gestão, recentemente a Academia Mato-grossense de Letras assinou um acordo com o Governo de Mato Grosso e vai abrigar a Biblioteca Estevão de Mendonça, num espaço que fica atrás da Casa Barão de Melgaço, antiga Delegacia Regional de Educação e mesmo sede da Seduc, devolvido pelo governo Silval Barbosa. Outra ação política importante foi o pedido de inserção das matérias de geografia, história e literatura de Mato Grosso nos currículos do ensino público, o que deve acontecer, segundo compromisso assumido pelo secretário Permínio Pinto, a partir de 2016.

A presidência de Mahon acabou com a preconceituosa avaliação da Academia como ambiente sisudo e retrógrado, inserindo, mais do que nunca, os acadêmicos no cotidiano cultural da capital

A presidência de Mahon acabou com a preconceituosa avaliação da Academia como ambiente sisudo e retrógrado, inserindo, mais do que nunca, os acadêmicos no cotidiano cultural da capital

 

Para Sueli Batista, jornalista e poeta, uma das novas acadêmicas empossadas na gestão que finda, “é indelével a marca positiva deixada pela gestão de Eduardo Mahon. As letras mato-grossenses, salvo suas raras exceções, aplaudem de pé”

Para Sueli Batista, jornalista e poeta, uma das novas acadêmicas empossadas na gestão que finda, “é indelével a marca positiva deixada pela gestão de Eduardo Mahon. As letras mato-grossenses, salvo suas raras exceções, aplaudem de pé”

EDUARDO MAHON

“Uma gestão séria e divertida”, decreta Sueli Batista

A leitura dos acadêmicos e frequentadores da AML é que a entidade passou por uma ‘revolução’

JOÃO BOSQUO
DC ILUSTRADO – DIÁRIO DE CUIABA

A gestão Eduardo Mahon surpreendeu a própria academia – alguns acadêmicos, mais renitentes ao novo se recusam a falar – afinal a academia não é para disputas públicas ou picuinhas. Aqueles que acompanham o trabalho realizado, dentro e fora da academia, são praticamente unanimes em dizer que a AML ganhou uma dinamicidade jamais imaginada, ao mesmo tempo em que manteve “o espírito que norteia a casa criada por Dom Aquino Correa”, como lembra Fernando Tadeu.

O professor e poeta Aclyse Matos, disse que “a gestão de Eduardo Mahon dinamizou a AML através de um trabalho bem integrado com o Instituto e outros órgãos ligados à cultura – inclusive a Unemat e a UFMT. Continuando o trabalho das gestões anteriores, atraiu a comunidade externa para a Casa Barão de Melgaço, através de cerimônias de posse concorridas, lançamento de livros, exposições, centenários e espetáculos de música e teatro. Enfim: as letras se voltaram para as artes, o que é muito bom”.

 Francisco Vuolo, ex-secretário de Cultura em Cuiabá: “Só ouvi comentários favoráveis”


Francisco Vuolo, ex-secretário de Cultura em Cuiabá: “Só ouvi comentários favoráveis”

O professor de Economia, escritor e membro da própria AML, Fernando Tadeu de Miranda Borges acredita que a entidade, com na gestão de Eduardo Mahon, manteve vivo o espírito que norteou a sua criação, deu continuidade a tessitura da linda rede regional com varandas abertas e alargou o campo das letras.  “A história da AML registra nos seus anais momentos de lutas com resultados importantes como a reconquista do prédio da Rua Comandante Costa, a entrada de dez novos acadêmicos, a realização de inúmeros eventos e a aproximação maior e mais efetiva com a sociedade. Eduardo foi meu aluno na Faculdade de Direito e, desde jovem, bastante idealista, dedicado, determinado e cuidadoso nos projetos e realizações.”

A jornalista e poeta Sueli Batista, diz que a “as letras ganharam sabores do doce e do sal”, com Eduardo Mahon à frente da AML.  “As letras não se calaram, trocaram farpas, debateram ideias em alto e bom som e raras vezes perderam o bom tom. Receberam novas cores do feminino, mas nada retinto, o azul permaneceu vigoroso. Reconhecidamente foi uma gestão séria e divertida, com rompimento de paradigmas, inovação e muito empreendedorismo. Mahon não foi uma unanimidade, nem todos quiseram compartilhar da sua partilha, mas é indelével a marca positiva deixada por sua gestão, e as letras mato-grossenses, salvo suas raras exceções, aplaudem de pé”, disse.

 Francisco Vuolo, ex-secretário de Cultura em Cuiabá: “Só ouvi comentários favoráveis”


Francisco Vuolo, ex-secretário de Cultura em Cuiabá: “Só ouvi comentários favoráveis”

 

Francisco Vuolo, economista, ex-vereador por Cuiabá, ex-secretário de Cultura, em Cuiabá, diz que fica feliz em falar da gestão de Eduardo Mahon, companheiro por quem tem muita estima e consideração.  “Confesso que estou acompanhando de longe a administração que ele vem realizando frente à Academia Mato-grossense de Letras. Porém, creio que os resultados tem sido positivos, pois só ouvi comentários favoráveis das ações, frente a essa instituição que é, sem dúvida, um dos principais ícones da nossa cultura e guarda os imortais nomes da nossa história”.

O ator, produtor e historiador do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte – GPEA/UFMT e Rede Axé Dudu – Coletivo Negro e Ambiental, Ivan Belém acredita que “Eduardo Mahon promoveu uma verdadeira revolução na AML, uma instituição reconhecidamente conservadora, tradicionalista. Em sua gestão a Academia se envolveu com a sociedade. Suas cadeiras foram preenchidas por pessoas com indiscutível contribuição à literatura mato-grossense. Destaco, sobretudo, o papel inclusivo, fundamental à democracia e à diversidade cultural. Em sua gestão tivemos a entrada de novos membros minoritários, como mulheres e negros. Depois do Eduardo Mahon, a Academia Mato-grossense de Letras jamais será a mesma. Agora, sim, nos sentimos representados!”

O poeta e revisor cuiabano Sady Folch, radicado em São Paulo, diz que a gestão de Eduardo Mahon gerou frutos que estão sendo compartilhados com a sociedade como um todo. “Eduardo Mahon transborda. Seus frutos, generosamente compartilhados. Sob a sua presidência frente à AML, no interior e pelas portas e janelas abertas da centenária Casa Barão de Melgaço, ressoando pela cidade, porquanto a cultura e a arte em todas as suas expressões ali estiveram presentes, encontra-se a receita a ser tomada de empréstimo, afinal a leveza e a profundidade do belo lhe emprestaram a razão a sustentar a nobreza que há na digna determinação de um homem.”

Justina Fiori, jornalista, diz que “a gestão de Eduardo Mahon pôs fim àquele ar sisudo da AML, que sempre foi vista como um espaço restrito. Antes, raramente eu frequentava esse ambiente já que os eventos não eram acessíveis. Hoje, estou na AML praticamente todas as semanas e vejo aumentar o número de frequentadores”.

O escritor, compositor e acadêmico Moisés Martins é taxativo em dizer que “a gestão de Eduardo Mahon foi inteligente, agregadora e com amplo espírito de liberdade!”.

 

 O ator Ivan Belém destacou o  papel inclusivo da gestão de Mahon, fundamental à democracia e à diversidade cultural. “Em sua gestão tivemos a entrada de novos membros minoritários, como mulheres e negros”. E Belém poderia ter acrescentado os gays, cujo ingresso fora barrado em gestão anteriores.


O ator Ivan Belém destacou o papel inclusivo da gestão de Mahon, fundamental à democracia e à diversidade cultural. “Em sua gestão tivemos a entrada de novos membros minoritários, como mulheres e negros”. E Belém poderia ter acrescentado os gays, cujo ingresso fora barrado em gestões anteriores.

 

 

 

 

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