PREFEITURA SANEAMENTO

30 ANOS DAS DIRETAS JÁ: Em 25 de janeiro de 1984, comício reuniu 300 mil na Praça da Sé, São Paulo. Lula classifica Diretas Já como ‘maior campanha cívica do nosso país’. 15 mil compareceram a comício em Cuiabá. “As Diretas-Já foram um movimento de massa, um movimento eleitoral. A ditadura já estava abatida, faltava só fazer o assalto final. Uma injeção nova, com PT, o PDT de Leonel Brizola e a esquerda do PMDB, aqueceu as massas e jogou uma pá de cal na ditadura, mesmo com a derrota no Congresso. Perdemos na votação, mas ganhamos no meio da massa e obrigamos a convocação da Constituinte” – avalia Gilney Viana

Tancredo Neves e José Sarney, com o professor Lenine Póvoas, na chegada ao comício das Diretas Já, em Cuiabá. Foto Demóstenes Milhomem

Tancredo Neves e José Sarney, com o professor Lenine Póvoas, na chegada ao comício das Diretas Já, em Cuiabá. Fotos Demóstenes Milhomem

Personalidades relembram 30 anos do movimento Diretas Já

  • Em 25 de janeiro de 1984, comício reuniu 300 mil pessoas na Praça da Sé, em São Paulo
  • O GLOBO*
Comício pelas eleições diretas na Praça da Sé, em 25 de janeiro de 1984 Foto: Arquivo
Comício pelas eleições diretas na Praça da Sé, em 25 de janeiro de 1984 Arquivo

BRASÍLIA e SÃO PAULO — No aniversário de 30 anos de um dos maiores comícios do movimento Diretas Já, que aconteceu em 25 de janeiro de 1984 na Praça da Sé, em São Paulo, personagens que participaram da maior mobilização popular da História do Brasil relembraram a união da sociedade e de todas as correntes políticas divergentes em defesa da retomada do voto direto para eleger o presidente da República. Como legado para o País, nesses 30 anos, apontam a consolidação incontestável das instituições democráticas e o fim das ameaças de ruptura da democracia. O desafio daqui para a frente, avaliam, é melhorar a qualidade da democracia, da representação popular e transformar a estabilidade democrática em instrumento de desenvolvimento social para os brasileiros que vivem em situação mais vulnerável.

São Paulo completava 430 anos naquela quarta-feira chuvosa do início de 1984. Mas o clima ruim não dispersou a multidão estimada em 300 mil pessoas que fora à Sé para ouvir discursos de opositores do regime militar. Uma celebração que nem o sistema de som precário esfriou o comício, que durou cerca de quatro horas.

No palanque, os ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, então senador e com 52 anos, e Luiz Inácio Lula da Silva, dirigente sindical na época com 38 anos, dividiam espaço com líderes oposicionistas como o presidente do PMDB Ulysses Guimarães (1916-1992), o governador do Rio, Leonel Brizola (1922-2004), do PDT, e o então prefeito da cidade, Mário Covas, do PMDB.

Fernando Henrique Cardoso destacou hoje ao GLOBO que, sem a mobilização popular, que teve sua alavanca no comício da Sé, dificilmente teria havido a “aceleração da mudança histórica que levou ao fim da ditadura militar no Brasil”.

— O vigor da enorme multidão nas ruas surpreendeu ate mesmo aos organizadores do movimento e assustou os donos do poder. Dai por diante o fim do autoritarismo era uma questão de tempo — disse.

O ex-presidente Lula também exaltou hoje o movimento, que começava a tomar corpo naquele comício, e a importância da democracia.

— Nós precisamos aprender a valorizar a democracia, sobretudo os mais jovens, porque a democracia, em qualquer parte do mundo, foi conquistada a custa de muita luta, de muito sacrifício, de muita morte. A democracia não foi de graça em nenhum lugar do mundo — disse Lula.

Herdeiro político e testemunha ocular de todo o movimento, junto com o avô, o presidente Tancredo Neves, então do PMDB, o presidente nacional do PSDB e candidato a presidente da República Aécio Neves (MG), relembra o desfecho da grande mobilização nacional. Em abril de 1984 foi derrotada a Emenda Dante de Oliveira e Tancredo partiu para a disputa no Colégio Eleitoral, sendo eleito. Como secretário do avô, aos 20 e poucos anos, Aécio fazia a ponte entre Tancredo e as principais lideranças das Diretas Já: Ulysses Guimarães, um dos atores mais importantes; Teotônio Vilela, José Richa, Leonel Brizola, Franco Montoro, Lula e Fernando Henrique Cardoso.

— Me lembro de tudo. Viajei com Tancredo para todos os comícios no País inteiro. Foi o movimento mais sublime da política brasileira. A palavra certa é grandeza. Não havia um projeto pessoal, muito diferente da política atual, em que o Brasil enfrenta uma tentativa perversa de dividir o País entre nós e eles, como se o fato de ser oposição nos tornasse menos patrióticos. Sinto saudade e reverência por aquele momento, onde lideranças com visões divergentes como Lula, Tancredo e Fernando Henrique se juntaram a Dante de Oliveira em torno de uma grande causa nacional — diz Aécio Neves.

Depois do comício da Sé, sucederam-se manifestações em diversas outras capitais do país, até culminar com os gigantescos atos da Candelária, a 10 de abril, no Rio de Janeiro, e o do Anhangabaú, a 16 de abril, novamente em São Paulo.

Com a derrota da Emenda Dante de Oliveira e a grande frustração nacional, relembra Aécio, o PMDB estava numa encruzilhada: continuava tentando aprovar uma outra emenda, ou lançava uma candidato ao Colégio Eleitoral, que na prática , continuava sendo uma eleição indireta, sem a participação do povo. Decidiu-se então que Tancredo disputaria o colégio eleitoral para derrotar os candidatos ligados á ditadura.

— A campanha da candidatura ao colégio eleitoral manteve a mobilização popular. Tancredo viajou o Brasil inteiro fazendo comícios para legitimar sua candidatura e ter o respaldo popular, o que aconteceu. No dia que foi eleito , no discurso disse que seria a última vez que o Brasil teria um presidente eleito por um colégio eleitoral e não pelo voto direto. E sua profecia se cumpriu — relembra Aécio.

Com 19 anos na época e já militando no movimento estudantil na Universidade Federal de Pernambuco, onde cursou Economia, o governador Eduardo Campos, candidato a presidente pelo PSB, diz que o movimento das Diretas Já foi uma inspiração para sua atuação no Diretório Acadêmico da UFPE. Lembra que mesmo sem as grandes massas do eixo Rio e São Paulo, Pernambuco foi o berço dos primeiros comícios, como o do dia 31 de março de 1983, no município de Abreu e Lima, e depois em Caruaru. Como Aécio, acompanhando o avô Miguel Arraes , participou dos grandes comícios pelo País afora.

— Com o movimento das Diretas e a participação maciça da sociedade, incorporamos os valores democráticos de modo indelével na vida brasileira, assumimos um compromisso visceral com a democracia. Desde então, nesses 30 anos, nunca mais tivemos ameaças de ruptura democrática, como na eleição de Juscelino. Isso passou a ser uma causa nacional que une todas as forças que tem responsabilidade no Brasil. Há divergências sobre muitas coisas, mas o compromisso com a defesa desses valores une a todos. Os setores reacionários hoje estão escondidos, envergonhados — diz Eduardo Campos.

O socialista avalia que a única semelhança com a participação popular das Diretas Já com as manifestações de agora, que começaram em junho do ano passado, é a busca da melhoria do País.

— Naquela época o movimento era puxado pelas lideranças políticas. Agora o movimento é autoral, todos e cada um procuram se representar, mas as circunstâncias históricas são difererentes. A semelhança é o desejo de melhorar o Brasil na saúde, educação, moradia, transporte e segurança — diz Eduardo Campos.

O senador Pedro Simon (PMDB-RS), um dos líderes do movimento pelas Diretas Já disse que naquele momento existiam duas instituições com força de partido: a Arena, o do “sim senhor” e o MDB, o do “sim”. Segundo ele, o Diretas Já não pode ser creditado a um grupo ou partido político, mas a toda sociedade brasileira.

— O movimento Diretas Já, se olhar toda a história do país, foi um momento único, realmente do povo, com a ideia da democracia. Não tem grandes fatos a serem comemorados em toda a nossa História. A República foi um golpe de estado, a abolição da escravatura foi uma assinatura da princesa Isabel — comparou ele.

Em 1970, contou, o MDB perdeu as eleições e por pouco não acabou. Mas em 1974 ele explodiu e foi crescendo, porém de forma desordenada, cada grupo defendia uma forma de atuar. Simon disse que preocupados com a situação, importantes lideranças do partido – Teotonio Vilela, Franco Montoro, Mário Covas, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves — se reuniram no Rio Grande no Sul para discutir o problema.

O fato era que o partido era uma frente e o País vivia a ditadura, mas havia o sentimento de que era necessário garantir a dignidade.

O MDB lança uma “Carta de Princípios”, com vários itens, sendo o principal deles a reivindicação “Diretas Já” em 1983. Foi adotada a emenda Dante de Oliveira (proposta de emenda Constitucional – PEC), disse, apesar de existirem várias outras tramitando no Congresso.

O movimento foi crescendo em todos os estados. E naquele 25 de janeiro de 1984, dia do aniversário de São Paulo, quando a prefeitura faz sempre festas populares, houve uma grande manifestação popular a favor das “Diretas Já”.

Para Pedro Simon, passados 30 anos daquele momento, um muito importante foi feita a Constituinte, mas que tem muitas coisas a serem aprimoradas.

— O grande equívoco da classe política é não fazer a regulamentação dos artigos mais importantes da Constituição, como o da fidelidade partidária e das reformas financeira e política — lamenta Simon.

Com grande atuação no movimento, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) lembra que, antes do comício do Anhangabaú, ainda em 1983, o Partido dos Trabalhadores havia organizado um evento em favor das eleições diretas na Praça Charles Müller, em frente ao estádio do Pacaembu, com mais de 30 mil pessoas.

— Dado o grande sucesso daquele evento, o PMDB e o então governador Franco Montoro decidiram se engajar na luta pelas diretas mais fortemente. O governador designou o secretário da Cultura, Jorge da Cunha Lima, para que junto com o representante do PT, José Dirceu, pudessem promover com sucesso o comício da Sé, em 25 de janeiro. O governador achou interessante facilitar o acesso à praça da Sé, isentando as tarifas do metrô. Foi o maior comício até então e com enorme ânimo — disse o então deputado federal, que esteve no comício.

Suplicy lembra que, apesar de a emenda Dante de Oliveira não ter sido aprovada, a força que emanou das manifestações populares pelas Diretas Já acabou colaborando com a criação de eleições diretas para prefeitos, governadores e presidente no período até 1989.

— A força foi de tal ordem que se tornou inevitável adotarmos as eleições diretas nos anos seguintes, mesmo com a derrubada da emenda.

Para o senador petista, as manifestações de hoje são diferentes daquelas sobre em defesa das diretas ou das passeatas que resultaram na derrubada do ex-presidente Fernando Collor, em 1992.

— Essas duas grandes manifestações se caracterizaram pelo pacifismo, sem atos de violência e elas de alguma maneira tiveram efeitos muito importantes para a democratização do país. O que esses jovens de hoje podem refletir é que as mudanças surgem quando se tem manifestações muito fortes com legítimos anseios da população, sobretudo dos jovens, como a votação da reforma eleitoral e política ou a proibição das contribuições de pessoas jurídicas (a campanhas). Minha recomendação, que tenho feito aos manifestantes, inclusive black blocs e Anônymous, é seguir o exemplo de pessoas que conseguiram realizar grandes revoluções de forma pacífica, como Mahatma Ghandi e Martin Luther King.

* Por Maria Lima, Monica Tavares, Danilo Farielo, Márcia Abos e Ronaldo D’Ercole

 

Lula classifica Diretas Já como ‘maior campanha cívica do nosso país’

  • Ex-presidente falou sobre o movimento que completa 30 anos
  • O GLOBO

RIO — O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva classificou as Diretas Já como “a maior campanha cívica do nosso país”, em vídeo publicado neste sábado, data que marca os 30 anos do comício da Praça da Sé, em São Paulo. No vídeo, Lula lembra que mesmo com a derrota no Congresso Nacional, o movimento conseguiu acabar com o regime militar, levando à eleição do primeiro presidente civil em 20 anos.

“Merece ser comemorado, sobretudo que a juventude pudesse pesquisar na internet e saber o que foi, pois nós precisamos aprender a valorizar a democracia”, disse o ex-presidente Lula. “A democracia em qualquer lugar do mundo foi conquistada às custas de muita luta, muito sacrifício, muita morte. A democracia não foi de graça em nenhum lugar do mundo.”

Para Lula, a Diretas Já foi “a campanha mais extraordinária que esse país já conheceu”, pois unificou setores de toda a sociedade.

“Ela conseguiu unificar todo mundo: o movimento sindical todo, o movimento estudantil todo, muitos empresários, todos os partidos políticos, com exceção dos partidos de direita.”, disse.

O ex-presidente lembra que, apesar da campanha, o Congresso Nacional não aprovou as eleições diretas para presidente. Ainda assim, Tancredo Neves venceria a eleição indireta no Colégio Eleitoral, pondo fim a 20 anos de regime militar no país.

 

Gilney Viana, ex-preso político: Diretas Já foi pá de cal na ditadura militar

Gilney Viana, ex-preso político: Diretas Já foi pá de cal na ditadura militar

 

 

 

Diretas Já foi ‘pá de cal’ no regime militar, afirmam historiador e cientista político

  • Há 30 anos, Praça da Sé recebia comício com 300 mil pedindo eleições diretas
  • VINICIUS SASSINE O GLOBO
 Comício pelas eleições diretas na Praça da Sé (SP), em 25 de janeiro de 1983 Foto: Arquivo
Comício pelas eleições diretas na Praça da Sé (SP), em 25 de janeiro de 1983 Arquivo

BRASÍLIA — O início dos grandes comícios, dos atos que representaram o ápice das Diretas-Já, significou a “pá de cal” que faltava no regime totalitário, a consolidação da ideia de democracia e o impulso necessário à convocação de uma assembleia para a elaboração de uma nova Constituição Federal. É o que afirmam um historiador, um cientista político e um militante dos comícios ouvidos pelo GLOBO.

Há 30 anos, em 25 de janeiro de 1984, a praça da Sé em São Paulo foi tomada por mais de 200 mil pessoas que pediam eleições diretas para presidente da República. O movimento já ocorria com grande força de mobilização desde 1983, mas ainda não havia contado com uma multidão como a da Sé. A partir de então, outros comícios e passeatas das Diretas-Já superaram o evento da praça da Sé. Em 25 de abril de 1984, a emenda das eleições diretas, do deputado Dante de Oliveira, foi colocada em votação e derrotada na Câmara.

– Embora não tenha sido aprovada, a emenda repercutiu de tal maneira que atingiu seu objetivo. Ela disparou mais na opinião pública, e menos no Congresso, a ideia de que era importante estabelecer as eleições diretas. Se não houvesse a emenda, não se conseguiria em curto prazo o que se viu. Foi decisivo para a redemocratização – afirma o historiador Octaciano Nogueira, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB).

Autor de um livro que traça um perfil de Dante de Oliveira, o cientista político Paulo Kramer, também professor da UnB, diz que a mobilização popular impulsionou a vitória de Tancredo Neves em 1985, eleito presidente de forma indireta em colégio eleitoral, “a segunda melhor opção naquele momento”.

– Havia a urgência de restaurar plenamente a democracia. A bandeira da Constituinte era muito impessoal, e as Diretas-Já personalizaram essa luta. Havia algo objetivo, que era ter um nome, uma pessoa em quem votar para presidente. O movimento contou com muitas forças organizadas da sociedade civil – afirma o cientista político.

Depois da ocupação da praça da Sé, os grandes comícios se espalharam por diferentes capitais brasileiras. Em fevereiro de 1984, foi a vez de Cuiabá. Um dos organizadores foi Gilney Viana, ex-deputado federal e hoje coordenador do projeto Direito à Memória e à Verdade da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Cerca de 15 mil pessoas compareceram ao comício. Segundo Gilney, o presidente do PT na época, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente do PMDB, Ulysses Guimarães, estavam presentes.

– As Diretas-Já foram um movimento de massa, um movimento eleitoral. A ditadura já estava abatida, faltava só fazer o assalto final. Uma injeção nova, com PT, o PDT de Leonel Brizola e a esquerda do PMDB, aqueceu as massas e jogou uma pá de cal na ditadura, mesmo com a derrota no Congresso. Perdemos na votação, mas ganhamos no meio da massa e obrigamos a convocação da Constituinte – diz Gilney.

A Assembleia Nacional Constituinte foi convocada em 1985. A Constituição, promulgada em 1988. No ano seguinte, Fernando Collor foi escolhido presidente em eleição direta.

Tanto o historiador Octaciano Nogueira quanto o cientista político Paulo Kramer não enxergam um paralelo entre a mobilização das Diretas-Já e os protestos de junho de 2013.

– A história não se repete, é única. Não há um fato histórico que seja igual a outro. Os fatos de 2013 podem ser semelhantes, mas não uma repetição – afirma Octaciano.

Para Paulo Kramer, as Diretas-Já foram bem diferentes dos “movimentos difusos” de junho do ano passado.

 

 

2 Comentários

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 177.111.155.191 - Responder

    olá! Meu pai (Roberto Donizete Constatino Leite) foi preso como subvercista, por incendiar uma bandeira do estado de sao paulo na praça da Sé, ele me ainda me disse que saiu em jornais da época relatando o acontecido. como entendido do assunto gostaria de saber se poderia me ajudar a achar os dados sobre este acontecido. Obrigada!

Deixe uma resposta para José    ( cancelar resposta )

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

catorze − oito =