TCE - DEZEMBRO

263 ANOS: A histórica cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade merece parabéns pela data. Merece mais: merece a presença da União e do Estado. Merece programa de regularização fundiária, de geração de empregos e para atrair investidores. O Brasil e Mato Grosso precisam resgatar a dívida moral, social e administrativa com o povo vilabelense

 

 

O governo federal sabe da existência do vácuo do Estado em Vila Bela 

Jornal Diário de Cuiabá

 

Feliz, entoando a poesia musical do conjunto Aurora do Quariterê, dançando o chorado com a sensualidade de suas filhas afrodescendentes, ao ritmo do tambor cultuando a congada, no altar celebrando o glorioso São Benedito e brindando a vida com o afrodisíaco Canjinjin. Assim, na quinta-feira, 19, com o lendário rio Guaporé que passa ficando ao seu lado, a vila negra e bela comemorou 263 de fundação.

Parabéns Vila Bela da Santíssima Trindade. Parabéns pela data e principalmente por seu desempenho histórico assegurando na fronteira Oeste a presença da nacionalidade brasileira, numa região de quase absoluta falta do Estado, situação essa que se arrasta há muito tempo e que a cada dia ganha contornos de abandono proposital em desrespeito ao princípio federativo e pela apatia institucional de Mato Grosso.

Vila Bela, distante 530 quilômetros de Cuiabá, foi a primeira capital mato-grossense. Carrega o título de primeira cidade planejada para sede de governo no Brasil, situação essa que foi copiada com a fundação de Belo Horizonte, Goiânia, Brasília e Palmas. Predominantemente sua população é negra, porque os negros foram deixados naquela localidade quando os senhores brancos que exerciam o poder em sua amplitude e respondiam pelo clero, se transferiram para Cuiabá, há mais de um século, com a mudança da capital.

Mesmo sendo sede de um município na fronteira com a Bolívia Vila Bela não tem Receita Federal nem delegacia da Policia Federal. A ausência dessas instituições afeta não somente aquele município, mas o Brasil, pois na linha imaginária que separa os dois países o crime transnacional age à luz do dia. Para o país vizinho são levados produtos do comércio formiguinha mato-grossense e da indústria nacional, e veículos roubados e furtados. No sentido contrário entra a cocaína e seus derivados, além de armas e munições.

O governo federal sabe da existência do vácuo do Estado em Vila Bela, mas finge desconhecê-lo. Até mesmo a presença do Exército naquele município é simbólica, com efetivos do 2º Batalhão de Fronteira aquartelado em Cáceres. O governo estadual aceita sem reclamar a transferência da fiscalização policial naquela região para o Grupo Especial de Fronteira (Gefron), que recebe recursos da União.

Um clima de insegurança agrária desestabiliza a economia rural de Vila Bela, que mesmo assim tem um rebanho bovino com quase um milhão de cabeças. ONGs transnacionais reivindicam áreas para aldeamento de uma etnia dita boliviana. A criação de territórios indígenas na fronteira fragilizaria a segurança nacional e seria um fator a mais para manter o vazio demográfico naquela área onde o medo é companhia constante dos moradores, que ficam expostos às quadrilhas dos barões das drogas.

A histórica Vila Bela merece parabéns pela data. Merece mais: merece a presença da União e do Estado. Merece programa de regularização fundiária, de geração de empregos e para atrair investidores. O Brasil e Mato Grosso precisam resgatar a dívida moral, social e administrativa com o povo vilabelense.

NE – Editorial deste domingo, 22 de março de 2015 do Jornal Diário de Cuiabá e disponível na versão eletrônica daquele matutino em www.diariodecuiaba.com.br

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