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20 DE NOVEMBRO: Queremos que o Estado Democrático de Direito, seja democrático e verdadeiramente de direitos, como foi um dia um recanto chamado Quilombo dos Palmares

Estátua de Zumbi dos Palmares, Pelourinho, Salvador, Bahia

Quem somos? O que queremos? Para onde vamos?
por Gleidson Renato Martins Dias

“Somos isto mesmo: a contradição. A ferida aberta, os atores limitados. Diante da força das coisas e das coisas da força, vamos muito lentamente. Tão lentos que parece o mesmo lugar. Mas não estamos no mesmo lugar.
Na verdade, se organizar para lutar já é uma vitória. Firmar-se para manter o espaço conquistado, uma necessidade estratégica. Não caminhar em direção ao colapso e à destruição precoce, uma sabedoria…”.
(Flavio Koutzii, deputado estadual “Carta aos Petistas” 2003).

Quem somos?
O texto acima é dirigido a um público específico e trata de um assunto específico, não é direcionado a nós. Mas podemos utilizá-lo para reflexão, pela sua abrangência e riqueza, que com certeza, mostra a complexidade de nossa condição psicossocial.

Por sermos humanos, imperfeitos e confusos perante a dialética existencial, exatamente como o grupo a que ele se refere nos identificamos com este texto. Pois também somos a contradição, a ferida aberta e, (eu diria) extremamente limitados.

Porém, como afro-brasileiros, como negros e negras somos também (e jamais podemos esquecer), um povo guerreiro, que tem no sangue e na história, a necessidade da luta para não sermos banidos enquanto grupo étnico, tampouco reduzidos a meio-cidadãos, ou meio-cidadãs.

Seja ela armada (como houvera no Haiti, com Toussaint L’Ouverture), ou pacífica (como ocorreu, nos EUA, com Martin Luther King Jr.), a luta sempre foi nossa companheira, pois tínhamos a missão de mostrar que a cor da nossa pele não reservava um lugar subalterno, inferior ou submisso.

Era (e é) necessário provar que nosso sangue, não era (e não é) sinônimo de ignorância, como diziam os pseudo-cientistas de plantão, e que nossa religião não era satânica, como esbravejava a igreja, pelos quatro quantos do planeta.

No campo das ciências, a luta política tinha a tarefa de desmascarar as teorias ideologicamente e estrategicamente racistas, como por exemplo, as teorias de Paul Broca, e do médico brasileiro, Raimundo Nina Rodrigues.

Para ambos, traços morfológicos tais como prognatismo, a cor da pele escura, o cabelo crespo, estariam associados à inferioridade, e à criminalidade. (Munanga 2001).

Mas a luta, sempre a luta. Em todos os campos: religiosos, sociais, amorosos, científicos, retóricos, enfim, a luta, como única arma para resistirmos à domesticação cultural imposta, pela ditadura colonialista.
Domesticação de nossos corpos, de nossas mentes, de nossas almas, de nossos “eus”, de nossos “nós”.

Quem somos?

Somos filhos e filhas de Zumbi, de Ganga Zumba, de Nelson Mandela, de Malcon X, de Tereza do Quariterê (rainha do quilombo de Quariterê), de Luiza Mahin (líder da Revolta dos Malês).

Somos herdeiros e herdeiras da força e da esperteza, de Chica da Silva, da intelectualidade e competência de Milton Santos, da sabedoria e coragem da rainha Nizinga, da resistência e liderança de Steve Biko, da determinação e bravura dos “Lanceiros Negros”, da ousadia e fibra de João Cândido.

Quem somos?

Somos a inconformidade, perante todos os tipos de injustiça e opressão.

Somos a Resistência. Somos a Consciência Negra.

Somos os intelectuais, os operários, as empresárias, as professoras, lutando com todas as nossas forças e imperfeições, para consolidarmos a liberdade e equidade social de fato.

Somos filhos e filhas da luta… da luta pela dignidade.

O que queremos?

Segundo Hegel: “(…) o homem é fundamentalmente diferente dos animais em seu desejo, não somente de objetos reais, mas também de objetos não-matérias, e acima de tudo, ele deseja o desejo de outros homens, isto é, ser reconhecido por outros homens, mas ser reconhecido enquanto homem, pois seu valor está estritamente ligado ao valor que os outros homens lhe atribuem. Portanto a importância desse desejo de reconhecimento, permite explicar que o homem procura o reconhecimento de sua própria dignidade ou daquela de seu grupo cultural, no qual ele investiu sua dignidade.”

Assim Jaques d’Adesky (2000), justifica a luta do movimento negro no Brasil, “(…) que procura denunciar que apesar da instauração de um governo democrático, a sociedade não foi capaz de uma solução às desigualdades econômicas, (…) que são vítimas negros e índios”. Segue d’Adesky dizendo: “(…) A luta contra o racismo apresenta-se, então, como um ideal democrático de maior igualdade de condições, e também como um esforço visando ao reconhecimento de status e de dignidade, que passa pela partilha do poder e pelo igual acesso aos bens materiais e as posições de prestígio”.

O que queremos? É exatamente isto que queremos, e é para isto que lutamos desde que fomos criminalmente colocados na diáspora.

Somos filhos da luta, e exigimos o respeito às diferenças, sejam elas culturais ou fenotípicas do nosso povo.

O que queremos?

Queremos que a moça branca e cega, que simboliza a justiça, comece a enxergar. Para assim, poder se envergonhar de sua condescendência com a injustiça e a exclusão social, de que são vítimas homens e mulheres, de pele escura no Brasil.

Queremos que a moça branca e cega que representa a justiça comece a enegrecer-se, para reparar a política de branqueamento e a política eugenista que ela mesma (a justiça brasileira) deu sustentação jurídica.

O que queremos?

Queremos um “outro mundo possível”, por que ele é possível, mesmo que os fatos desta perversa sociedade insistam em provar o contrário.

O que queremos?

Queremos que o Estado Democrático de Direito, seja realmente democrático e verdadeiramente de direitos, como fora um dia um recanto de luta e fartura, chamado Quilombo dos Palmares, onde moravam homens e mulheres, negros e não-negros de forma justa, igualitária e fraterna.

O que queremos?

Queremos a cidadania em toda sua plenitude. Queremos nos lambuzar nas delícias da vida, e responder pelos erros como indivíduos que somos sem rótulos preconceituosos.

Queremos ver a diversidade étnica e cultural brasileira.

Queremos dar ao Brasil, ao Estado, às universidades, às revistas e jornais, às empresas públicas e privadas, a cara negra e mestiça que escondem. A cultura africana e indígena que esnobam. A beleza negra que rejeitam.

Para onde vamos?

Vamos incansavelmente atrás de nossos sonhos, desejos e ideais. Mostrar a todos e a todas que acreditamos na mudança. Por que não acreditar na mudança desta sociedade, é não acreditar em nós mesmos, é abdicarmos de nossa inteligência e atuação política. É nos reduzirmos a condição animal, e principalmente, é não dar valor às lutas e conquistas dos nossos ancestrais.

Para onde vamos?

Vamos lutar como sempre lutamos. Chorar como já choramos. Perder como já perdemos e vencer como já vencemos.

Vamos fazer a nossa parte, mesmo sabendo que diante “da força das coisas e das coisas da força”, parecemos parados, estáticos, imóveis.

Para onde vamos?

Vamos remar contra a maré.

Pois sabemos onde estamos.

Estamos num mundo de exclusão, sufocados por uma hegemonia política e econômica, asfixiados por uma ditadura estética, não condizente com a realidade populacional brasileira.

Sabemos que o mundo está assim, mas não necessariamente precisa ser assim, como bem lembra o saudoso intelectual negro Milton Santos:

“(…) de fato, se desejamos escapar à crença de que esse mundo assim é verdadeiro, e não queremos admitir a permanência de sua percepção enganosa, devemos considerar a existência de pelo menos três mundos num só. O primeiro seria o mundo tal como os fazem vê-lo: (…); o segundo seria o mundo como ele é: (…); e o terceiro o mundo como ele pode ser (…)”.

Para onde vamos?

Vamos ampliar as vitórias conquistadas.

Vamos conquistar novos espaços, e vamos a busca de um mundo para todos e para todas. Só depende de nós, e estamos fortes, unidos, sabedores da importância de ações, e de momentos como estes que estamos vivendo hoje. Momentos que se desmarcara preconceitos disfarçados de conceitos.

Que se descobre novos aliados.

Que se fortalece guerreiros esmorecidos.

Que se socializa conhecimentos para alicerçarmos a tão bem vinda vitória.

Por isso falar do povo negro é falar de resistência, de luta e de superação. Resistência talvez possa até servir de sinônimo para nosso povo, haja vista sua sempre marcante presença.

Por este motivo 20 de novembro é o dia de comemoração da Consciência Negra, onde lembramos o grande líder e Herói Nacional Zumbi dos Palmares, mas Consciência Negra temos todos os dias.

Pois a polícia, e os seguranças das lojas, nos lembram que temos que ter Consciência Negra quando nos colocam preferencialmente nas “abordagem de rotina” e nos perseguem dentro dos estabelecimentos comerciais.

Os empresários e empresárias nos lembram da necessidade diária de termos Consciência Negra quando para nos empregarem como vendedor, balconista, ou recepcionista pedem uma foto e “boa aparência”, isto é muito além do necessário pois para tal função apenas um bom currículo deveria ser o solicitado.

A televisão brasileira que nos exclui ou nos apresenta sempre em posição inferior e subalterna ajuda a entendermos a necessidade da Consciência Racial cotidiana.

Nossa invisibilidade nos cargos de chefia, nos Ministérios e Secretarias de Estado nos comprova e conclama que temos que ter Consciência Negra diuturnamente.

Por fim, mas não menos importante, um pensamento que resume nossa visão de compromisso com a mudança e necessidade pela luta.

“Não importa o que o mundo fez de você.
Importa o que você faz com o que o mundo fez de você.”
(Jean Paul Sartre)

(*) Pronunciamento no Seminário “Ações Afirmativas E Reparações: A Questão do Negro Brasileiro”, promovido pelo Núcleo de Estudo e de Ações Afirmativas João Cândido, dia 13 de novembro de 2003, na Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre.

(*) Bacharel em Direto pela PUC-RS, militante do Movimento Negro Unificado.

 

Estátua em homenagem a Zumbi dos Palmares, em Salvador, Bahia

Estátua em homenagem a Zumbi dos Palmares, em Salvador, Bahia

4 Comentários

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  1. - IP 201.3.37.24 - Responder

    Não é bem assim, havia escravos também no Quilombo.

  2. - IP 187.55.191.7 - Responder

    O que queremos?

    Queremos que o Estado Democrático de Direito, seja realmente democrático e verdadeiramente de direitos, como fora um dia um recanto de luta e fartura, chamado Quilombo dos Palmares, onde moravam homens e mulheres, negros e não-negros de forma justa, igualitária e fraterna.

    De onde saiu essa pérola, desde a África os negros nunca se organizaram de forma justa, igualitária e fraterna.
    Zumbi tinha escravos, que igauldade é essa? Que fraternidade é essa?
    Não precisa nem ir aos livros de história, basta buscar o noticiário do continente africano, para saber que as várias tribos continuam se matando até hoje.

  3. - IP 200.140.26.192 - Responder

    Cuidado, Carlos Eduardo, você lembrando a verdade histórica de que o líder negro tinha escravos negros, vai provocar a turma da “stasi” eletrônica que patrulha este espaço para que não seja lembrado o quanto o Ernesto Guevara era sanguinário ou que o Marighella era e susutentava ser um terrorista. Não demora e aparece um esquerdotralha para dizer que Guevara ser sanguinário, Marighella ser e defender terrorista e Zumbi ser dono de escravos negros, não passa de piada.
    Enock, dizer que o quilombo dos palmares vivia sob o estado democrático de direito é, além de distorcer a história, contribuir para uma mistificação com base em mentiras. Isso, cedo ou tarde, vai resultar não em benefício, mas em prejuízo, para a consciência negra.
    Querem herois negros de verdade??
    Que tal, Enock, o líder da Revolta da Chibata que morreu totalmente esquecido???
    Ou os muitos advogados negros de São Paulo, célebres na defesa de outros negros acusados???
    Ou ainda o negro Joaquim Barbosa, presidente do STF, que evitou que o Mensalão se tornasse piada de salão como queria o tesoureiro do esquemão.

  4. - IP 189.59.47.181 - Responder

    Meu caro Enock, que fora, heim???

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